
Aveiro acolheu nova reflexão sobre o luto com o padre Mateo Bautista
O padre Mateo Bautista, fundador do “Grupo de Apoio ao Luto – Ressurreição”, regressou a Aveiro um ano depois para se reunir com o clero da diocese e proferir uma palestra aberta à comunidade, centrada na pastoral de acompanhamento aos enlutados e no apoio às pessoas em luto.
O religioso camiliano espanhol, atualmente residente em Lima, no Peru, apresentou em Esgueira a visão que sustenta o projeto internacional, sublinhando a necessidade de ferramentas concretas para lidar com a dor. «O importante é que a pessoa se faça protagonista e trabalhe a sua vida e fique com essa “bolsa” de recursos”», afirmou ao Diário de Aveiro.
«Formar-nos pelo luto da própria mortalidade»
Ao longo da entrevista, o padre Mateo defendeu uma abordagem mais ampla ao sofrimento da perda, que não se limita apenas ao momento da morte. «Temos que formar-nos pelo luto da própria mortalidade, pelos seres queridos que vão morrer e pelos que já morreram», referiu, salientando que o processo deve ser entendido em várias fases.
O sacerdote alertou, ainda, para o afastamento social em relação ao tema da morte. «A morte é um tabu. Há pessoas que nem querem ouvir falar da morte, nem da palavra morte», disse, defendendo a importância de uma maior literacia emocional e espiritual nesta área.
Em Aveiro, o responsável do projeto reuniu com elementos da Diocese e com o bispo diocesano, D. António Moiteiro, que destacou a relevância da iniciativa para o território pastoral.
Envolver-se e trabalhar para sanar
Segundo a Diocese, estes encontros são fundamentais para «enriquecer o trabalho do grupo e inspirar novas ações de solidariedade e acolhimento».
Na mesma linha, a responsável local do grupo, Ana Soares, sublinhou o impacto direto do projeto na vida dos participantes. «É gratificante ver que não fui só eu a ficar mais forte, mas que outras pessoas também começaram a encarar a vida de outra maneira, com mais luz», afirmou.
Ana Soares destacou, ainda, a mudança observada nos participantes ao longo do processo. «No início estão perdidas, mas no fim já conseguem sorrir, já conseguem voltar a trabalhar e encarar a vida de outra forma», referiu.
Também o casal espanhol Angélica e Carlos, com experiência em grupos de apoio ao luto, realçou a eficácia do modelo, incluindo na sua versão “online”. «No que respeita à cura, parece-me igual. Inclusive tivemos casos muito difíceis e que estão a seguir em frente e a sarar», afirmou Angélica, sublinhando que a ligação emocional entre os participantes se mantém igualmente forte, mesmo à distância. Mas, foi alertando, «não basta ouvir. A pessoa tem de se implicar e trabalhar o que é indicado, porque o avanço depende disso».
O padre Mateo Bautista destaca a importância de criarem espaços seguros para que os enlutados possam expressar a dor sem receio de julgamento. «Há pessoas que chegam completamente perdidas, sem vontade de viver e, ao longo do percurso voltam a encontrar sentido para a vida. Isso vê-se no olhar, na expressão e na forma como voltam a relacionar-se com os outros». O projeto assenta em encontros semanais e acompanhamento contínuo, onde os participantes partilham experiências e recebem orientação estruturada. «O protagonista é o grupo em si e a pessoa. Os coordenadores são facilitadores», explicou o padre Mateo, acrescentando que o objetivo é promover autonomia e não dependência emocional.
Na palestra realizada no salão paroquial da Igreja da Vera Cruz, o tema centrou-se na necessidade de criar espaços seguros para a expressão da dor. O sacerdote sublinhou, ainda, que muitas pessoas vivem o luto em silêncio. «Não conseguem falar da morte, nem, sequer, usar a palavra morte», referiu.
O projeto, que nasceu a partir de experiências pessoais de acompanhamento, procura também capacitar participantes para ajudarem outros em situações semelhantes. «Um dos objetivos é que o que aprendem aqui seja reproduzido na família», explicou. |












