
Alvarenga: uma história de vida, morte e renascimento
Débora Cruz e Rui Cunha
Hugo Carvalheira tem uma recordação vaga do último golo do Grupo Desportivo Santa Cruz de Alvarenga (GDSCA). O homem que a 8 de maio de 2022 guardava a baliza do pequeno clube de Arouca tem de fazer um esforço de memória. «Houve uma bola ressaltada de um livre», descreve, «e o Bruno aproveitou e fez o remate». O golo de Bruno Ribeiro foi marcado aos 12 minutos no Campo Reinaldo Noronha, num jogo que o Espinho venceria por 2-1. Foi o último golo do GDSCA - e o último jogo.
O fim do GDSCA ditou o fim do futebol na aldeia - o Campo Reinaldo Noronha é agora um santuário vazio e silencioso. A sensação de isolamento
e desamparo é comum nas terras do interior. Sem futebol, Alvarenga sentiu-se espoliada. Havia alguma coisa a menos. Porém, ao contrário de uma estação dos correios ou de uma repartição das finanças, o futebol não depende de decisões de executivos engravatados sentados em poltronas almofadadas numa cidade distante. Depende do orgulho da comunidade local.
Filipe está ligado à agricultura e à pecuária, Luísa é gestora de um empreendimento turístico, Rui é proprietário de um restaurante, João é dono de talhos e de uma empresa de “catering”, José Hermínio explora uma oficina de carros. Estas e outras pessoas têm idades, percursos e profissões diferentes, mas uma coisa em comum, algo que se pode caracterizar como um bairrismo benigno.
O fim do futebol foi uma experiência dolorosa. Mas, com a mobilização da aldeia, um outro projeto floresceu. A ADRA - Associação Desportiva e Recreativa de Alvarenga, fundada este ano, vem encher o buraco vazio. Mas mais do que uma história sobre futebol, esta é uma história sobre identidade e obstinação.
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