
«A experiência académica tem vindo a tornar-se mais complexa»
Pedro Lages, Provedor do Estudante da Universidade de Aveiro, fala do que mais preocupa os alunos da instituição aveirense. O alojamento «é uma das principais preocupações dos estudantes e das suas famílias», explica em entrevista. O responsável espera que a figura do provedor ganhe mais visibilidade. «Não creio que seja tão conhecida como deveria», diz.
Diário de Aveiro: Quais são as principais preocupações que os estudantes lhe fazem chegar?
Pedro Lages: São bastante diversas e, por isso, foi necessário harmonizar e organizá-las em grandes grupos para efeitos de compreensão, comparação e análise de evolução. As exposições ao Provedor do Estudante organizam-se, então, em cinco grupos: os temas académicos/ /administrativos, onde se integram as exposições relacionadas com o funcionamento geral dos cursos e suas unidades curriculares; os temas pedagógicos, onde se integram exposições associadas à lecionação, contacto e relacionamento com docentes, avaliações, entre outros; os temas de ação social, fundamentalmente relacionados com alojamento, alimentação (cantinas) e auxílios de emergência; as informações e outros assuntos. Nota-se, então, que o tema onde recaem constantemente o maior número de exposições é exatamente aquele que afeta todos os estudantes, isto é, o âmbito académico. Estamos a falar de dúvidas na interpretação de regulamentos ou interpretações gerais dessas normas que podem levar a situações potencialmente injustas, designadamente no que respeita a propinas, inscrições, horários, candidaturas, mobilidade, estatutos especiais, etc.. É interessante referir que também chegam até ao Provedor do Estudante pedidos de apoio por parte de elementos externos, nomeadamente antigos alunos, potenciais futuros alunos à procura de informações, ou candidatos que discordam da classificação atribuída.
Como é que tem evoluído o número de exposições feitas ao Provedor do Estudante ao longo dos anos?
Desde a criação deste órgão, as exposições ao Provedor do Estudante têm-se mantido em torno de uma centena por ano. Nota-se uma subida gradual natural, ainda que pouco expressiva, que pode estar associada ao maior conhecimento da comunidade acerca da figura e das suas competências, existindo picos em momentos críticos como foi o caso da pandemia. Esta evolução pode refletir, evidentemente, essa visibilidade da função, mas também a complexidade crescente da experiência académica. É positivo que, nestas circunstâncias, os estudantes se sintam à vontade para recorrer ao provedor, pois criam condições para uma análise cuidada à sua situação concreta, facilitando a sua resolução, e fomentando, em alguns casos, a formulação de recomendações gerais de aplicação mais alargada. Nesse sentido, é importante referir que o recurso ao Provedor do Estudante é sinónimo de um processo de melhoria institucional, abrindo-se a possibilidade de fomentar reflexões circunstanciais que seguramente permitirão novas e melhores abordagens no futuro. Quero com isto dizer que, aberto um procedimento pelo Provedor do Estudante, o objetivo é ouvir todas as partes, compreender a situação de forma completa e, conjuntamente, encontrar um caminho construtivo para resolver a questão. O foco é sempre o de mediar, orientar e procurar soluções, não em criar conflitos e aplicar sanções. O Provedor do Estudante pretende ser um ponto de apoio para ajudar a resolver desencontros e facilitar a criação de melhores procedimentos para o futuro.
E a natureza das exposições tem sofrido alguma transformação?
A natureza das exposições, face aos âmbitos que referi, tem-se mantido sensivelmente constante e em torno da mesma distribuição, isto é, os temas académicos reúnem um maior número de exposições, seguidos dos temas pedagógicos e, posteriormente, ação social. Provêm em maior número de estudantes de primeiro e segundo ciclo e, temporalmente, situam-se tipicamente no início de semestres/ano letivo, ou seja, janeiro e fevereiro, e agosto e setembro. Tem-se notado também um aumento da procura por parte de estudantes de doutoramento. Como referi anteriormente, a complexidade crescente da experiência académica tem certamente contribuído para este aumento. Por outro lado, o elevado número de pedidos de informação ou pedidos de esclarecimento sobre assuntos da responsabilidade direta de serviços específicos, para os quais são imediatamente encaminhados, faz reduzir a percentagem de casos onde o provedor intervém efetivamente. Dos casos onde o Provedor intervém, tem conseguido promover uma reanálise e reapreciação da decisão, significando, por um lado, alterações de decisões, mas também aceleramentos em processos que estejam mais atrasados. Note-se que, por vezes, os estudantes também não conseguem clarificar os seus pedidos, o que pode levar a indeferimentos por manifesta impossibilidade, sendo que, nestes casos, o apoio é prestado diretamente ao estudante, o que pode influenciar uma decisão distinta em função de um novo pedido mais claro e justificado.
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