
Fim de semana de “Reencontros de Música Contemporânea”
Esta manhã, no âmbito dos “Reencontros de Música Contemporânea” (RMC), a Sala Estúdio do Teatro Aveirense é ocupada por um grupo de jovens estudantes de música, provenientes de diferentes conservatórios, academias e escolas profissionais de música, alguns para um primeiro contacto com a música contemporânea. Aí permanecerão até ao final da tarde de amanhã, num trabalho orientado pelo maestro e compositor Carlos Lopes, com assistência informática musical de Nádia Carvalho, explorando uma nova obra de João Moreira (2004), encomenda da Arte no Tempo para este estágio Nova Música para Novos Músicos - trabalho que culmina com uma apresentação pública, às 19 horas de domingo, incluindo ainda a interpretação de uma obra encomendada para o 2.º estágio, em 2019, de Tiago Cutileiro (1967), como adianta nota de imprensa recebida pelo nosso jornal, acrescentando que, antes disso, os RMC propõem para este sábado um recital de violoncelo solo, às 19 horas, na Igreja das Carmelitas, e um trio para a noite, na Sala Principal do Teatro Aveirense (21.30 horas).
Violoncelista aveirense Gonçalo Lélis atua na Igreja das Carmelitas
O violoncelista que se apresenta na Igreja das Carmelitas é Gonçalo Lélis, solista aveirense que no domingo passado interpretou o Concerto de Schumann com a Orquestra Filarmonia das Beiras. O programa que traz aos RMC é, contudo, radicalmente diferente e bastante diverso, combinando a mais revolucionária música do século XX com o melhor do Barroco. “Pression” [1969], de Helmut Lachenmann (1935) é um dos marcos daquilo a que o compositor chamou de “musique concrète instrumentale” – que, grosseiramente, poderemos traduzir como música concreta criada através de uma utilização menos convencional daqueles que são os instrumentos convencionais de uma orquestra. Evitando sons de altura definida, o compositor atrai o ouvinte (e o intérprete) para uma nova forma de pensar a arte musical em que, antes de tudo o resto, vem o som. Trata-se de uma partitura “perscritiva”, que se centra na ação a desenvolver: o intérprete lê a “receita” de movimentos/gestos/ações que deve realizar, focado numa consciência corpórea e de espacialidade, de que o som parece mera consequência.
Ao violoncelista, de acordo com o comunicado, é literalmente pedido que pressione, abane, aperte, deslize, bata e toque em diferentes partes do instrumento, ora com arco, ora diretamente com as mãos, revelando, através dos diferentes gestos, uma panóplia de sons inesperados.
Logo a seguir a esta obra “radical”, Gonçalo Lélis interpreta “Anamorphoses IV”, obra de Isabel Soveral de que deriva “Anamorphoses V”, que o ars ad hoc interpretará no fim de semana seguinte, no Teatro Aveirense. E antes da Suite n.º 5 para violoncelo solo (scordatura), do grande mestre do Barroco J. S. Bach (1685-1750), Lélis interpreta uma obra para violoncelo e eletrónica da britânica Joanna Bailie (1973), música que entra em diálogo com aquela obra de Bach por processo de citação.
Bach deixou duas versões da partitura daquela, uma das quais com uma afinação diferente. É esta, em que a corda aguda está afinada 1 tom inteiro abaixo do comum “lá”, tornando a já de si sombria suite ainda um pouco mais solene e escura.
Re:Flexus Trio atua no sábado
À noite, o há muito prometido concerto do Re:Flexus Trio interpreta um programa também ele pensado como um todo: depois da “Märchenerzählungen”, Op. 132, de Robert Schumann (1810-1856), Maria Isabel Mendonça, Catarina Gonçalves e Ana Sofia Matos dão a escutar a obra que György Kurtag (1926) compôs a pensar naquela de Schumann – “Hommage a R.Sch.”, op.15d [1990] – e estreiam a obra que Nádia Carvalho (1995) compôs por encomenda da Arte no Tempo, com financiamento da Direção-geral das Artes, para este mesmo concerto – “Was it the Lyrical Nightingale” [2025], para trio e eletrónica.
“Concerto para famílias” no domingo
Na manhã de domingo, o ars ad hoc dá um “concerto para famílias” (11 horas), recebendo o público no palco da Sala Principal do Teatro Aveirense, interpretando obras do modernismo (Debussy e Stravinsky) até 2024. Com bilhetes a três euros, não faltam boas razões para conhecer a nova música.
A Arte no Tempo é uma estrutura com sede em Aveiro, financiada pela República Portuguesa - Cultura/Direção Geral das Artes. Os “Reencontros de Música Contemporânea” são um dos seus projetos, organizado em coprodução com o Teatro Aveirense.












