
Apagão deixa empresas sem trabalho e causa corrida aos geradores
O apagão geral que deixou Portugal, Espanha e França às escuras, deixou vários constrangimentos em serviços essenciais como hospitais, transportes, aeroportos e telecomunicações. Em Terras de Santa Maria há quem tenha sido dispensado do trabalho e passasse a tarde com uma cerveja já pouco fresca, enquanto outros pediam gasóleo para alimentar geradores e dar resposta às filas nos supermercados.
Testemunhos num dia difícil
Sem tarefas para executar por conta da falta de eletricidade, Fernando Farinha, corticeiro numa fábrica de Santa Maria de Lamas, freguesia do município de Santa Maria da Feira, foi dispensado do trabalho ao fim da manhã, aproveitando o dia de sol para beber uma cerveja com um colega. «Claro que já não está nada fresca, porque não há luz para o frigorífico, mas ao menos viemos ver como é que os outros estão a lidar com isto», explicou, ontem, à Lusa, de pé ao balcão, com cotovelos apoiados no topo. «A ir para casa, vou mais logo, porque, como já tenho pouco gasóleo na carrinha, arrisco-me a não poder abastecer tão cedo e a ter que ficar lá fechado muito tempo», justificou.
A preocupação com o carro e a combustão deveu-se ao facto de vários postos de abastecimento da zona apresentaram extensas filas desde a hora de almoço. Segundo um cliente do posto do supermercado E. Leclerc, «temos que abastecer antes que deixe de haver combustível», enquanto uma senhora noutro veículo acrescentava que já esteve algumas vezes «parada com o carro ligado só para poder ouvir a rádio» e manter-se atualizada quanto ao que se estava a passar com o corte de energia em Portugal e Espanha.
Na pastelaria Real, em São João de Ver, onde Fernando estava a beber o seu fino, já não se serviam cafés e bebidas quentes, nem pão, exceto à base de abóbora, desde as 11.30 horas, período em que se deu o apagão geral. Com temperatura ambiente, as bebidas capsuladas ainda iam saindo, mas na vitrina dos balcões estavam intocados mais de 50 pastéis, de várias formas e feitios, tal como no frigorífico vertical, reservado para bolos maiores e mais vistosos, daqueles que se comem em casa à fatia, onde há tartes de maracujá que não resistirão até ao dia seguinte. «O que está nas arcas de bebidas não se estraga, mas o que eu quero é vender estes bolos todos agora à tarde», adiantava a funcionária Sara Pinto, prometendo uma “happy hour” a partir das 17 horas, com a oferta de um pastel na compra de cada dois. Quanto à gelataria, estava dava como perdida, uma vez que se «vai derreter tudo», pois «para os gelados não há remédio», garantia.
Onde não se adivinhava prejuízo era no supermercado Continente Bom Dia do pequeno centro comercial Suil Park, na mesma freguesia, porque, ao contrário do habitual, durante a tarde todas as caixas registadoras estiveram operacionais, com longas filas, em resposta ao imprevisto aumento de procura suscitado pelo apagão elétrico. Com alguns nervos de funcionários, devido à inesperada azáfama, a gerente de loja, Vera Matias, mostrava um calmo controlo da situação, explicando o porquê deste supermercado estar a funcionar quando outros da mesma marca ficaram inoperacionais. «Temos um gerador, mas nem todos os ‘Continentes’ têm um», sendo que, neste caso, «na fase da construção decidiram instalar gerador e, por isso, é que estou a pedir a todos os meus funcionários que me arranjem gasóleo para o manter a funcionar», proferia.
Ainda segundo a gerente do supermercado, o facto dos trabalhadores da casa «viverem perto» do local de trabalho facilitou a resposta à emergência, pois bastou contactar o pessoal que estava a usufruir da sua folga semanal e uns voltaram ao serviço mais cedo do que lhes seria exigido, enquanto outros foram para as gasolineiras à procura do tal combustível.
Ao ser interpelada sobre a sua serenidade, comparativamente a outros colegas, Vera Matias conseguiu sorrir, enquanto expressava: «Depende da personalidade de cada pessoa e da sua postura na sociedade, mas eu gosto de ajudar. Está aqui tanta gente à procura de bens essenciais, como água, enlatados, bolachas e tudo o que não precise de eletricidade, que eu só quero que não me falte o gasóleo para poder dar resposta a esta procura toda», concluiu.












