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Designer apresenta coleção inspirada nas raízes da região

Margarida Estanqueiro apresenta a coleção “Bela”, onde mistura identidade e amor entre gerações, sendo guiada pelo seu legado familiar através de peças únicas

A Escola Artística e Profissional Árvore, no Porto, foi palco de uma das apresentações mais comoventes do ano letivo. Margarida Estanqueiro Silva, jovem designer de moda natural da Gafanha da Nazaré (Ílhavo), apresentou a sua coleção de final de curso, intitulada “Bela”, numa homenagem intensa e pessoal à avó, Maria Estanqueiro, e à sua terra natal.

“Moda como expressão de identidade”

Aos 15 anos, Margarida tomou a decisão corajosa de deixar a Gafanha da Nazaré para estudar no Porto. Começou o secundário na Escola Artística e Profissional Árvore, onde se formou em Design de Moda. O percurso, porém, foi tudo menos fácil. As longas viagens diárias entre casa e a escola, iniciadas às seis da manhã e terminadas ao início da noite, marcaram profundamente o seu trajeto. «Foram três anos muito complicados. Dormia pouco, fazia os trabalhos nos comboios, vivia sempre a correr».

Foi ao receber o tema da coleção final - “Moda como expressão de identidade” - que Mar­garida Estanqueiro decidiu mergulhar nas suas raízes e na figura que mais a marcou, mes­mo sem ter convivido com ela: a avó. «Sempre disse que a minha primeira coleção ia ser sobre a minha avó. Ela foi uma mulher incrível. Lutou para estudar, sofreu violência doméstica, criou os filhos sozinha, montou um salão de cabeleirei­ro em casa e, mais tarde, tornou-se professora de têxteis».

Como revela a designer, a ligação com a sua avó foi construída através de objetos, histórias contadas pela mãe, manuais antigos, peças de vestuário feitas à mão e uma herança de coragem silenciosa que decidiu transformar em moda.

“Bela”: uma carta de amor bordada à mão

A coleção “Bela” recebeu o nome carinhoso que apenas a irmã da avó usava. O nome tornou-se símbolo da intimidade, da delicadeza e da força de caráter que a sua neta quis homenagear na sua primeira coleção,e que hoje já conta com a marca criada “M. Estanqueiro”, uma nova homenagem ao utilizar a assinatura da avó como nome, perpetuan­do a sua memória.

As peças apresentadas misturam elementos dos anos 80 com traços clássicos da região da Gafanha da Nazaré e parte da região de Aveiro. Os tecidos foram maioritariamente adquiridos em armazéns de “deadstock”, por ques­tões económicas e sustentáveis, e inspiraram-se em têxteis de lar como colchas, mantas e camisas antigas. Muitos detalhes foram bordados à mão, como os favos aplicados em punhos e camisas, e pérolas costuradas manualmente.

«Pas­sei semanas a bordar pérolas. Fiz tudo com o maior carinho e respeito. Não quis usar objetos da minha avó porque têm valor sentimental, mas recriei o espírito dela em cada peça». A autora da coleção revelou que as peças têm como base não só a estética da avó, mas também a simbologia: a dualidade entre delicadeza e força é visível nas silhuetas femininas protegidas por casacos robustos que, segundo ela, «emergem como uma metáfora para a dureza que muitas mulheres precisam de vestir na sociedade».

Um futuro que se quer com raízes e asas

Como comenta a própria designer, abdicou de férias, noites de descanso e grande parte da sua vida social para concluir a coleção. Bordou à mão no comboio, alinhavou em casa, estudou tendências, desenvolveu desenhos técnicos, produziu vídeos e até pediu ajuda aos amigos para bordar pérolas, um elemento predominante na coleção, em maratonas caseiras. «Quis fazer uma coleção que não fosse só bonita. Quis fazer algo que tivesse qualidade, conteúdo e verdade. Algo que fizesse a minha avó sentir orgulho», revelou a designer, também destacando que a entrega da coleção foi um momento de grande emoção, não apenas pela conclusão do cur­so, mas por tudo o que a coleção representa.

Com o curso terminado, Margarida já traça os próximos passos. Vai continuar a estudar na Modatex, no Porto, para aperfeiçoar a confeção. Ao mesmo tempo, quer desenvolver a sua marca pessoal “M. Estanqueiro” (@bymestanqueiro no Instagram) e levar a coleção “Bela” a concursos nacionais e internacionais. Já tem também em mãos uma nova coleção de verão, focada na reutilização de ganga e no “upcycling”, com modelos reais e diversidade corporal. «Quero criar peças com amor, feitas com intenção e qualidade. Quero que as pessoas sintam que é algo único e que carrega história», revelou. A jovem designer, também sonha com uma exposição, através de uma loja “Pop-Up”que junte os trabalhos da avó, fotografias antigas, escritos e os seus próprios coordenados, criando um espaço de memória, arte e homenagem.

Margarida Estanqueiro acredita que o seu maior diferencial é o cuidado, a intenção e a emoção colocados em cada criação. «Eu dou tudo. Dou o meu tem­po, a minha energia, o meu coração. Acredito que as peças têm de ter alma». A terminar, deixou uma mensagem para todos os jovens que sonham seguir um percurso semelhante. «Vão bater com a cabeça muitas vezes. Mas lutem pelos vossos sonhos. Eu abdiquei de tu­do, da sanidade mental, do verão e descanso para poder fazer esta coleção. E valeu cada segundo. Façam algo com significado. Façam moda que con­te histórias». Foi assim que, com tecido, memória e vontade inquebrável de honrar o passado, Margarida Estanqueiro não só criou uma coleção de roupa, como enalteceu o legado da sua família e a história da região.

Abril 25, 2025 . 09:45

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