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Estudo concluiu que nem todos os deltas identificados em Marte são verdadeiros


quarta, 22 janeiro 2020

Um estudo liderado por David Vaz, da Universidade de Coimbra, e Gaetano Di Achille, do Instituto Nacional de Astrofísica de Itália, concluiu que grande parte dos deltas identificados em Marte não são verdadeiros, foi hoje anunciado. Acabado de publicar na revista científica Earth and Planetary Science Letters, o estudo apresenta “novos dados para o debate sobre as implicações climáticas, hidrogeológicas e astrobiológicas dos depósitos sedimentares deltaicos em Marte”, afirma a Universidade de Coimbra (UC), numa nota enviada hoje à agência Lusa.

Nas duas últimas décadas, “dezenas de possíveis depósitos sedimentares deltaicos foram identificados na superfície de Marte, tendo a sua formação sido atribuída à existência de antigos lagos e rios marcianos”.

Esse tipo de depósito sedimentar, salienta a UC, é considerado “uma das principais evidências para sustentar a ideia de que, no passado, Marte apresentava condições climáticas mais favoráveis que permitiram a presença de água líquida no planeta”.

Esta investigação conclui, no entanto, que “não é bem assim”, isto é, “uma grande parte dos depósitos anteriormente identificados no planeta vermelho não é de origem deltaica (os deltas formam-se pela acumulação de sedimentos transportados pelos rios), ao contrário do que a comunidade científica defendia”, explicita a UC.

A partir de topografia de alta resolução fornecida por imagens de missões espaciais europeias e americanas, os investigadores analisaram 60 depósitos sedimentares de diferentes zonas de Marte e, “com surpresa”, verificaram que apenas “30 por cento são realmente deltas, ou seja, depósitos associados a ambientes subaquáticos e que consequentemente indicam de facto a existência de lagos e de uma maior quantidade de água”, relata David Vaz, investigador do Centro de Investigação da Terra e do Espaço (CITEUC) da Faculdade de Ciências e Tecnologia da UC (FCTUC). “A maioria deles terá uma origem diferente, tendo-se depositado em ambientes principalmente subaéreos, ou seja, existiram menos lagos do que se pensava em Marte”, sublinha, citado pela UC, David Vaz.

Estes depósitos sedimentares que não têm origem deltaica “podem ser produto de actividade hidrológica efémera e transitória gerada por mecanismos locais, ligados, por exemplo, a actividade vulcânica, tectónica, impacto de meteoritos ou cometas, que poderiam ter derretido o gelo subterrâneo, gerando fluxos de água”, esclarece o cientista.

As conclusões deste trabalho são, sustenta o investigador do CITEUC, um contributo importante para futuras missões espaciais, pois “são indicadores geomorfológicos importantes para a escolha de locais ideais para missões com objectivos astrobiológicos”. “Muitos dos possíveis lagos anteriormente identificados como tal deveriam ser cuidadosamente reanalisados para excluir a ocorrência de mecanismos locais que geraram actividade hidrogeológica efémera, não necessariamente associada a um clima global favorável à presença estável de água líquida durante longos períodos de tempo”, sugere David Vaz.

Os resultados deste estudo trazem, por outro lado, novos elementos para a discussão sobre a evolução climática em Marte, sugerindo que “a formação dos verdadeiros deltas poderá ter sido mais limitada no espaço e no tempo”, salienta.

Para caracterizarem os depósitos sedimentares, os investigadores efectuaram um balanço volumétrico entre os sedimentos erodidos (estimando o volume dos vales formados pela acção dos rios no passado) e os volumes depositados nos possíveis deltas. “Esse balanço foi utilizado como indicador para decifrar os mecanismos sedimentares predominantes durante a formação dos depósitos”, remata David Vaz.

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