
«O maior problema hoje da sociedade aveirense é a habitação»
Diário de Aveiro: Que reflexão é que gostaria de fazer a propósito da vida e do legado do Papa Francisco?
António Moiteiro: A propósito do Papa Francisco, gostava de dizer duas ou três coisas que me parecem importantes. A primeira, foram os contactos pessoais que tive com ele. Deu-se a curiosidade de eu estar em Roma quando fui nomeado bispo de Aveiro. O papa nomeou-me numa segunda-feira, eu soube numa terça e na quarta estive com ele na audiência geral, na Praça do Vaticano. Eu disse ao papa: “então o Santo Padre nomeou-me bispo em Portugal para Aveiro…” E ele sabia de onde eu vinha. Eu era auxiliar de Braga. Eu manifestei um pouco a dificuldade que se tem sempre de assumir uma diocese na plenitude dessa mesma vida religiosa. E ele disse-me uma coisa muito simples: “vai com confiança e alegria, porque quem é o pastor é Cristo”. Para mim, isto foi muito significativo. Depois tive outros encontros, nomeadamente nas visitas que os bispos periodicamente fazem a Roma, ao Santo Padre, para dizermos qual é o estado da diocese. E há sempre uma manhã em que o papa se reúne com os bispos. Antes era individualmente, este papa era por grupos. Começava sempre assim: “aqui há liberdade total, perguntem o que quiserem e eu também respondo e perguntarei o que entender”. Este aspeto na vida do papa em relação a nós é fundamental. A outra dimensão que eu considero importante é que ele veio na continuidade de uma série de papas que marcaram a Igreja. Estou a pensar no João XXIII e depois o Paulo VI, o João Paulo I, muito pouquinho tempo, o João Paulo II, com os longos anos do seu pontificado, e o Bento XVI, como teólogo. E depois o Papa Francisco. Onde é que ele se distinguiu dos outros papas? A mim parece-me que em duas coisas, muito simples. A primeira foi que ele quis voltar novamente ao espírito do concílio. Aquele espírito de renovação, de transformação presente no Concílio Vaticano II. Alguns dos aspetos do concílio, passados 50 anos, precisam de uma atualização para os tempos de hoje, apesar de ser profundamente atual. E o outro aspeto é que, se o concílio falava numa igreja mais de acordo com os tempos, ele, no seu próprio estilo, procurou encarnar esse espírito e mostrá-lo nas suas atitudes e na forma como desempenhou a sua missão. Eu penso que esses aspetos também marcaram a vida do papa no seu estilo e na missão que ele desempenhou nas variadas dimensões deste mundo em que vivemos.
Era um papa muito querido por muitos, mesmo por quem não professa a sua religião...
Há duas ou três dimensões que são muito próprias dele. Falámos do concílio e a nível interno da Igreja ele procurou situar a Igreja, os cristãos, naquilo que é o fundamental da vida cristã. Ele procurou desenvolver aquilo que nós chamamos o primeiro anúncio, isto é, anunciar que Jesus Cristo está vivo e ressuscitado. E é à volta deste acontecimento da pessoa de Jesus que se desenvolve toda a vida da Igreja. Mas, no diálogo com o mundo, ele teve iniciativas muito inovadoras. Ele foi eleito em março de 2013 e em julho, passados quatro meses, o que é que ele faz? Vai a Lampedusa, aquela ilha onde os imigrantes que vinham de África paravam, onde muitos ficaram. Procuravam um lugar de sossego, uma tranquilidade maior para as suas vidas, uma organização melhor para as suas famílias, e o que é que encontraram no mar? A morte. O altar da missa foi feito com tábuas dos barcos que traziam os imigrantes e se tinham afundado. Ele deu logo o tom ao seu pontificado. Mas não se ficou apenas por este gesto, pô-lo em prática no modo como acolheu no Vaticano famílias imigrantes, sobretudo do Médio Oriente, quando mandou fazer balneários para os mais pobres, os sem-abrigo, quando fundou um refeitório social… Tomou atitudes concretas para as pessoas concretas que estavam diante dele. Outro aspeto do papa que gostaria de sublinhar é a preocupação com a ecologia, com o que ele chamava a casa comum. Essa casa comum que nós, cristãos, acreditamos que é um mundo criado por Deus para que este mundo seja para todos. Usando a expressão dele, para todos, todos, todos, e não apenas para alguns.
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