
«Se queremos uma Europa com autonomia estratégica, não podemos deixar de pensar na soberania alimentar»
Diário de Aveiro: A CAP representa os agricultores e produtores florestais portugueses há 50 anos. Quais foram as principais mudanças testemunhadas pelo setor agrícola ao longo destas décadas?
Álvaro Mendonça e Moura: Hoje, quando olhamos para a nossa agricultura, vemos uma agricultura radicalmente diferente daquela que tínhamos quando a CAP foi fundada. Hoje, temos uma agricultura muito mais moderna, muito mais desenvolvida e com muito menos gente. Há aqui uma passagem, que aliás acompanha o desenvolvimento geral do país, de uma atividade baseada, em quase 100 por cento, na mão de obra, para uma atividade que hoje é feita de tecnologia e de máquinas. Agora estamos a passar da fase da mecanização para a fase da digitalização e a começar na Inteligência Artificial. Mas há um aspeto que continua a ser preocupante: o rendimento da atividade agrícola continua abaixo do rendimento médio de outras atividades.
O que explica a evolução desse indicador em Portugal?
Tem que ver, por um lado, com o nosso ponto de partida, mas também com várias outras questões, desde logo a distribuição do valor dentro da cadeia de valor: desde que se faz a sementeira até que o produto é vendido ao consumidor, onde é que fica a parte importante da distribuição de valor? Dentro desta cadeia alimentar, acho que a agricultura ainda não conseguiu reter uma parte, digamos, proporcional, do valor acrescentado. É uma questão que temos que trabalhar, porque o importante é o valor acrescentado. Ainda assim, temos alguns setores onde os processos são absolutamente surpreendentes: nos últimos dez anos, Portugal multiplicou por 4,5 o valor das exportações no setor dos pequenos frutos.
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