
O farmacêutico que é também produtor de mirtilo por causa dos avós
Cortava-lhe o coração a possibilidade de os campos dos avós maternos, onde outrora foi tão feliz, ficarem «ao abandono». Paulo Oliveira, agora com 43 anos, viveu a infância no tempo em que «as creches e os ATL eram as casas dos avós». Naquela altura, «não havia cá grandes computadores, nem telemóveis, e muito menos jogos, e, portanto, os miúdos tinham que se entreter com alguma coisa», contou ao Diário de Aveiro, prosseguindo: «Como os pais da minha mãe viviam próximos de nós e eram ligados à agricultura, acompanhávamo-los, fosse para o que fosse: desde plantar cebolo, tirar as espigas do milho, fazer o próprio debulhar do milho, alimentar os animais, etc.».
«Bichinho da agricultura que esteve sempre lá»
Foi, pois, por causa do «bichinho da agricultura, [que] esteve sempre lá, e que, entretanto, despertou», e pelo facto de querer muito honrar a memória dos seus antepassados, evitando que os terrenos agrícolas da família ficassem a monte, que este farmacêutico do concelho de Sever do Vouga é hoje também produtor de mirtilo, conciliando atualmente as duas profissões.
Já anda nestas andanças desde 2012, ano em que, no âmbito do Projeto Jovem Agricultor, ele e o cunhado, Nicolas Coutinho, começaram por instalar um pomar de mirtilo de dois hectares na freguesia de Paradela, concretamente em Soutelo, «de onde sou natural e os meus avós [já falecidos] também eram», recorda. É precisamente neste lugar que está sediada a BioVouga, a primeira empresa que ambos criaram, há 14 anos, tendo em vista a produção daquele que é conhecido como o “Fruto da Juventude”, riquíssimo em antioxidantes, e do qual «existem mais de 100 variedades no mundo inteiro».
Mais recentemente, em 2023, fundaram a Vouga Fruits, com sede na Zona Industrial de Cedrim, situada mesmo «na freguesia ao lado», não distando «mais de três quilómetros do pomar». É que, como produzem, «sobretudo, para exportação», Paulo Nogueira e Nicolas Coutinho sentiram «necessidade de criar uma segunda empresa que fosse dedicada à comercialização da fruta». «Comercializando não apenas mirtilo [como a BioVouga], mas todos os frutos vermelhos [framboesa, groselha, amora, morango, etc.], a Vouga Fruits agrega um grupo de 50 produtores, com larga experiência na produção de pequenos frutos, para terem, como explicou Paulo Nogueira, «quantidades superiores para chegarmos a mercados que normalmente também valorizam melhor a fruta».
«Com uma procura cada vez maior, tivemos de arranjar outros produtores que produzam para nós. A maioria é de Sever do Vouga, mas também temos de fora do concelho, precisamente, para podermos ter fruta durante mais tempo ao longo do ano», reforçou a ideia.
«A caminho dos cinco hectares»
Começaram por ser eles «a produzir [mirtilo] única e exclusivamente», confinando-se a uma área de dois hectares. Volvida mais de uma década, já estão «a caminho dos cinco hectares. E, sim, já não cultivámos só os campos dos meus avós», sublinhou, visivelmente orgulhoso, Paulo Nogueira, completando: «Neste momento, temos três hectares em plena produção, o que corresponde à volta de 30 toneladas de mirtilo/ano».
Para já, ainda vão recorrendo a «mão de obra das redondezas [mais mulheres do que homens e a grande parte acima dos 50 anos de idade]», que, embora escassa, vão contratando «essencialmente para a colheita [manual e que não pode ser feita de qualquer maneira devido ao mirtilo ser um fruto com a sua fragilidade] e para a poda». Mas, o mais certo é virem, no futuro, também a contratar gentes de outras paragens, inclusive migrantes. Ainda mais agora que estão a pensar seriamente em produzir igualmente kiwi e abacate, «como um complemento à cultura do mirtilo, porque tanto um como o outro têm épocas de produção e colheita diferentes».
Voltando ao mirtilo, Paulo Nogueira explicou ao Diário de Aveiro que «o que diferencia o mirtilo de Sever do Vouga dos demais tem a ver com o que a terra nos dá e com o que o clima nos proporciona». «Temos aqui», conforme garantiu, «caraterísticas de sol e de ambiente que se traduzem, depois, em características organolépticas do produto, nomeadamente o sabor, o cheiro, a própria coloração». «O mirtilo começou a ser aqui produzido e agora produz-se quase em todo o país, mas, sim, o daqui é diferente (para melhor) e em Sever do Vouga temos variedades que não há noutros lugares».
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