
De Vagos a Nelas: 340 quilómetros a conhecer moinhos e gastronomia
A casa gandaresa de Santo António, em Vagos, foi o ponto de partida e o ponto de chegada de uma iniciativa de promoção da Rota dos Moinhos de Portugal, um projeto criado em 2023 por cinco municípios dos distritos de Aveiro e de Viseu. A atividade permitiu a um grupo de jornalistas, “influencers” e agentes turísticos conhecerem o património molinológico de Vagos, Águeda, Albergaria-a-Velha, Sever do Vouga (Aveiro) e Nelas (Viseu), num roteiro de 340 quilómetros que contou com a visita a moinhos e a degustação de produtos gastronómicos tradicionais.
Tratou-se de uma «experiência imersiva» de dois dias por «territórios e comunidades onde os moinhos continuam a desempenhar um papel relevante na identidade local, na preservação da memória coletiva e na dinamização turística», resumiu a organização.
Vagos
A Casa-Museu de Santo António de Vagos e o seu moinho de vento giratório são geridos pelo grupo folclórico local. «Estes moinhos eram muito usados nesta região gandaresa», explicou Manuel Pereira, presidente da coletividade. O engenho, disse o antigo professor de 64 anos, foi totalmente recuperado e pode ser visitado juntamente com a casa gandaresa, datada de 1937 e onde o grupo folclórico realiza alguns eventos ao longo do ano destinados à «preservação de atividades ancestrais».
A Câmara de Vagos, assinalou Graça Gadelho, vereadora da Cultura e Turismo, tem 360 mil euros para investir na requalificação deste edifício municipal. Tem também planos para recuperar pelo menos um moinho comunitário do concelho, à luz de um esforço de preservação deste património que tem na Rota dos Moinhos um dos instrumentos principais deste projeto comum.
«Temos de mostrar aos jovens que estas tradições não podem morrer, porque, se morrem, morre um bocadinho de nós», apela a autarca. Cativar as gerações mais novas para a conservação deste património «não é fácil», assume, mas é um trabalho que tem de ser feito. Afinal, lembra, é «a identidade deles e das suas famílias» que está em risco.
No Boco, Mário Ribeiro mostrou a Azenha Barreto, cujo último moleiro, Manuel Custódio, cessou a atividade há mais de 20 anos. O moinho, com mais de 130 anos, não está a funcionar. «Não tem a roda exterior, que era o que fazia andar a mó», explica. O proprietário, de 61 anos, vai zelando por ele e abrindo a porta para visitas. «Os mais novos ficam muito admirados como as pessoas viviam antigamente», diz, lembrando que só no vale do Boco chegaram a existir 14 azenhas. «Nasci no Boco e passei aqui grande parte da minha infância, por isso é que gosto disto e vou tentando manter alguma coisa do bom que temos», comenta.
O mesmo faz Alfredo Neves, de 67 anos, na Azenha da Ti Luísa, o nome da sua avó. «É uma azenha de família que foi passando de geração em geração. Consegui chegar à décima geração, mas possivelmente já estará na família há mais tempo», conta.
Esta azenha do Boco ainda funciona com frequência, «mas já não é como era», assume o proprietário. «As azenhas no Boco chegavam a funcionar 24 horas por dia». O engenho esteve inativo alguns anos, até que Alfredo Neves o colocou novamente em funcionamento, há 13 anos. «Gosto de transmitir ensinamentos, sobretudo às crianças», diz.
No Boco, três confrades da Confraria dos Sabores da Abóbora confecionaram Broa Mimosa. «Leva açúcar branco e amarelo, ovos, fermento de padeiro e manteiga com sal», descreve Rosa Maria Vieira, de 77 anos. No final de amassar, cada padeira faz uma reza. «Deus te acrescente, como o milho de semente. Em nome do Pai, do Filho e do Espírito Santo», exemplifica Rosa Maria. Finalmente, a broa coze no forno a lenha por 30 a 40 minutos.
Águeda
Em Águeda, o grupo é conduzido a Macieira de Alcôba, uma aldeia serrana onde se situam o Moinho Novo, o Moinho Pequeno e a Moinhola, que tem a particularidade de ser um exemplar único da tradição molinológica portuguesa. Construído no final do século XIX e início do século XX, este engenho movido pela força humana destaca-se por ser a única estrutura deste tipo no país.
Estes moinhos foram recuperados no âmbito do projeto Aldeia Pedagógica do Milho Antigo, havendo outros à espera do mesmo destino, nomeadamente no Carvalhal. «Queremos ir buscar a nossa história e dá-la a conhecer», diz Celeste Dias, da Junta de Freguesia do Préstimo e Macieira de Alcôba, apostada também em repovoar as pequenas aldeias da serra. Povoações como Macieira de Alcôba têm «muito poucos habitantes», mas a autarquia acredita que é possível atrair novos moradores criando condições de habitação e dotando-as com pequenos negócios comerciais.
A Rota dos Moinhos, assume Paula Loureiro, da Divisão de Ambiente, Sustentabilidade e Turismo da Câmara de Águeda, é «um projeto extremamente importante para estas aldeias» por funcionar como chamariz. «O turismo vai trazer o que a aldeia precisa: movimento e agentes económicos que queiram investir», diz.
Em Águeda existem moinhos em funcionamento em Macieira de Alcôba, Aguada de Cima e Espinhel, havendo outros engenhos que, segundo a técnica municipal, poderão futuramente ser incluídos na rede. Além de proporcionar a recuperação de um património identitário, é também uma forma de «transmitir aos mais novos o que eram os trabalhos ancestrais» da região, nota.
Albergaria-a-Velha
A Atafona do Sobreiro e o moinho de São Marcos de Baixo foram os engenhos visitados em Albergaria-a-Velha. No Sobreiro, Armindo Abreu mostrou um moinho tradicional datado do início do século XIX conhecido como moinho de sangue devido ao seu funcionamento movido por uma vaca marinhoa. Apesar de ter cessado a sua atividade nos anos 1950, a Atafona do Sobreiro permanece em excelente estado de conservação e é uma raridade nacional. «Em Portugal não há mais nenhuma atafona montada», garante o proprietário, neto do homem que a construiu. «Vamos manter este mecanismo, é um compromisso nosso», promete Armindo Abreu.
O Moinho de São Marcos de Baixo, por sua vez, remonta ao século XIX e era uma das 11 unidades molinológicas que existiam ao longo de cinco quilómetros do Ribeiro de São Marcos. Outrora pertencente a um moleiro profissional, o moinho ficou inativo a partir da década de 1970. «Quando peguei nisto estava abandonado, em ruínas e cheio de silvas», recorda Joaquim Vieira. «O moinho chegou até nós através de uma herança da minha esposa, filha de um moleiro de profissão que tinha uns oito ou dez moinhos», esclarece.
Depois de vários anos abandonado, o engenho foi recuperado há cerca de oito anos. «O meu sogro ficou todo contente por haver seguimento na família», diz Joaquim Vieira, que abre o espaço a turistas sempre que existem solicitações. Um próximo passo, admite, poderá passar por criar um alojamento de turismo rural.
«Albergaria foi dos primeiros municípios a dar atenção a este património», sublinha o vereador Henrique Caetano, revelando que a rede de moinhos concelhia conta atualmente com 11 unidades, número que a autarquia quer aumentar.
No quadro de uma estratégia municipal de recuperação do património e de potenciação turística, os moinhos converteram-se numa das «imagens de marca do concelho», fruto de um trabalho em parceria com privados.
Sever do Vouga
Abel Rocha é responsável pelo Moinho da Encosta dos Túneis, localizado na Quinta do Vale Côvo, um empreendimento turístico em Paradela. «Tenho memória de ir com a minha mãe ao moinho levar o milho e no outro dia ir buscar a farinha. Depois acabei por cair neste trabalho», diz. O homem, de 55 anos, aprendeu o ofício de moleiro há cerca de 12 anos, quando o moinho em ruínas foi requalificado. «Ensinaram-me a trabalhar com o moinho, não tinha nenhuma experiência», conta. «Tem os seus quês, mas aprendi facilmente».
Na freguesia de Silva Escura fica o segundo moinho visitado em Sever do Vouga. O Moinho do Moleiro da Costa Má é um engenho de água de rodízio datado do início do século XX construído para servir 15 famílias locais, funcionando como um espaço comunitário.
O moinho integra uma unidade turística imersa na natureza, comprada há quatro anos por um empresário holandês que conheceu o espaço como hóspede. «Apaixonei-me por Portugal e agora quero ficar para sempre», assume Lammert de Hann.
Natália Rodrigues, de 73 anos, era a antiga proprietária. «Quando é preciso venho cá ajudar, sei lidar com o moinho», comenta. Quando é solicitada, como foi o caso nesta iniciativa promocional da Rota dos Moinhos de Portugal, dedica-se a fazer pão, bolo com sardinha e bolo com chouriço.
Num município com forte tradição molinológica, a Rota dos Moinhos ofereceu uma escala e uma dinâmica intermunicipais ao projeto de salvaguarda deste património, assume a vereadora Paula Coutinho. «Para Sever do Vouga é importante recuperar memórias e criar experiências únicas aos visitantes e aos locais», salienta a autarca, realçando ainda o trabalho junto dos mais novos «para saberem como surge o milho, a farinha, o pão, que não vêm do supermercado».
Nelas
O Moinho das Poldras, em Senhorim, foi o último do roteiro de dois dias. «Comprámos a propriedade e recuperámos o moinho. Enquanto pudermos não desistimos do moinho», assegura Assunção Santos, de 78 anos, que aprendeu a fazer pão com a mãe numa aldeia vizinha. O pão era cozido num forno comunitário. «Cada pão estava marcado com um sinal próprio, o meu era um dedo», recorda.
Sérgio Espírito Santo, técnico da Câmara de Nelas, conta que foi feito um levantamento que identificou cerca de 120 moinhos no concelho, alguns deles recuperados. Ele próprio comprou um engenho em 2015, que reabilitou. «Queremos deixar inculcadas as nossas tradições, o nosso património coletivo e a nossa história nos mais jovens», resume Joaquim Amaral, presidente da autarquia, depois de um almoço no restaurante Tertúlia, que trabalha com produtos endógenos, como o milho. «Fazemos uma versão com míscaros, milhos de vinha d’alhos ou milhos de tomate com sardinha frita», exemplifica José Cardoso, escanção do restaurante.











