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Quando uma livraria fecha a cultura fica mais pobre

Gigões & Anantes vai fechar portas após 14 anos de atividade. O fundador aponta as alterações de consumo, o aumento do custo de vida e dificuldades do setor livreiro como as principais razões para o encerramento

A Livraria Gigões & Anantes, um dos mais reconhecidos espaços culturais independentes de Aveiro, vai encerrar definitivamente no próximo dia 30, colocando um ponto final num projeto que marcou a vida cultural da cidade ao longo dos últimos 14 anos.

Em entrevista ao Diário de Aveiro, o responsável recorda que o projeto nasceu em 2012, numa altura em que procurava criar uma livraria especializada em álbuns ilustrados, mas destinada a leitores de todas as idades. «Queríamos fazer uma livraria diferente, que escolhesse com rigor aquilo que disponibilizava aos leitores, tanto em termos de qualidade gráfica como de texto. Queríamos também estabelecer uma relação diferente com os clientes e com os fornecedores», explica.

Ao contrário das grandes superfícies, a Gigões & Anantes apostou desde o início numa seleção cuidada de livros portugueses e estrangeiros, em várias línguas, e numa programação regular de atividades culturais.

Espaço cultural que desaparece

Segundo Francisco Vaz da Silva, o projeto nunca teve co­mo objetivo gerar riqueza, mas sim garantir a sua sustentabilidade. « O que pretendíamos era que fosse um projeto viável e que fosse possível manter uma livraria com estas características, independente e com autonomia», afirma.

As dificuldades começaram a tornar-se mais evidentes após a pandemia da Covid-19. O encerramento temporário das livrarias, aliado ao crescimento das compras “online”, alterou significativamente os hábitos de consumo. «Quando as pessoas voltaram à rua, já havia muita gente habituada a comprar pela Internet, sem perceber que ao fazê-lo estava a contribuir para o encerramento dos espaços físicos», refere.

A subida do custo de vida a­gra­vou ainda mais as dificuldades. «As pessoas têm de pagar casa, alimentação e outras despesas essenciais. É natural que acabem por cortar naquilo que não é fundamental».

A realidade atual é bem diferente da que encontrou quando abriu portas. «Hoje há dias em que não entra ninguém na livraria. Ontem vendemos um livro, anteontem não vendemos nenhum. Isto é inviável».

Para Francisco Vaz da Silva, o encerramento da Gigões & Anantes representa uma perda que ultrapassa largamente a dimensão comercial. «Acho que é uma perda grande que as pessoas não dimensionam. Não é apenas o problema do negócio. Perde-se um espaço onde a­conteciam encontros, conversas, apresentações e experiências culturais e familiares», sublinhou.

Críticas à concentração do mercado livreiro

Ao longo da conversa, Francisco Vaz da Silva manifesta preocupação com a crescente dependência das tecnologias digitais. «Estamos a viver uma época em que há cada vez mais dificuldades de concentração e isso preocupa-me. Os livros ajudam-nos a desenvolver espírito crítico, imaginação e capacidade de reflexão». Na sua perspetiva, a progressiva concentração do mercado livreiro nas grandes plataformas poderá também reduzir a diversidade da oferta editorial. «Quem vende livros de forma massiva acaba por privilegiar aquilo que é mais rentável. O risco é perdermos diversidade, perdermos vozes diferentes e perdermos riqueza cultural», apontou.

Apesar do encerramento da Gigões & Anantes, garante que continuará com projetos ligados a novos livros da sua autoria, trabalhos de impressão “fine art” e outras iniciativas artísticas adiadas devido às exigências da gestão da livraria.

Quanto ao espólio, uma parte significativa dos livros já foi vendida ou devolvida aos fornecedores, e até ao final do mês, os leitores ainda podem visitar a livraria e adquirir os títulos que permanecem em “stock”.

Na despedida, Francisco Vaz da Silva deixa uma mensagem de agradecimento a todos os que passaram pela Gigões & Anantes ao longo destes 14 a­nos. «Gostava de agradecer a todas as pessoas que fizeram deste espaço um lugar especial. Continuem a ler. Os livros ajudam-nos a pensar, a questionar, a compreender melhor o mun­do e a sermos pessoas melhores», concluiu.

A 30 de junho encerra uma livraria. Mas, para muitos aveirenses, encerra também um capítulo importante da vida cultural da cidade.

Junho 21, 2026 . 09:00

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