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Núcleo dos Combatentes de Oliveira do Bairro lembra que «há muito por fazer»

Décadas após o conflito em África, veteranos da Bairrada denunciam falhas nos apoios estatais, dificuldades no acesso a direitos e a persistência de sentimentos de abandono

Mais de 50 anos depois do fim da Guerra do Ultramar, continuam vivas as marcas deixadas nos milhares de portugueses que passaram por esse cenário. Em entrevista ao Diário de Aveiro, o presidente do Núcleo da Liga dos Combatentes de Oliveira do Bairro, Gil Miranda, acompanhado pelos antigos combatentes José Reis e Cesário Maia, recordou o papel desempenhado pela Liga dos Combatentes na região da Bairrada, mas também as dificuldades que continuam presentes na vida de muitos veteranos e das suas famílias.

Lutar para não serem esquecidos

Gil Miranda começou por recordar a origem do Núcleo da Liga dos Combatentes de Oliveira do Bairro, explicando que o projeto nasceu «da iniciativa de cidadãos do concelho, movidos pelo amor à pátria e pelo desejo de incutir nos jovens o significado dos símbolos nacionais».

O dirigente salientou ainda que também esteve ligada à «necessidade de preservar a memória dos combatentes e de homenagear os que perderam a vida durante o conflito».
Atualmente, o núcleo conta com cerca de 320 associados e funciona como ponto de apoio e encaminhamento para antigos combatentes e respetivas famílias.

Gil Miranda destacou que o Estatuto do Antigo Combatente representou um avan­ço importante, embora reconheça que ainda existem lacunas. «Ultimamente, com a criação do Estatuto do Antigo Combatente, criaram-se alguns benefícios para esta classe de cidadãos que esteve durante muito tempo marginalizada».

Apoios não chegam a todos

Entre os apoios atualmente existentes estão comparticipações nos medicamentos, isenção de taxas moderadoras, acesso a acompanhamento psicológico especializado, benefícios nos transportes públicos e apoios sociais. «A nossa área de intervenção vai exatamente no sentido de dar conhecimento às pessoas dos direitos que têm, ajudá-las a aceder a esses benefícios e encaminhá-las para os serviços adequados», explicou, referindo que, apesar da existência destes mecanismos de apoio, muitos antigos combatentes consideram que a realidade fica aquém das promessas políticas.

Cesário Maia falou abertamente da frustração sentida por muitos veteranos. «Fala-se mui­to agora na gratuitidade dos medicamentos para os antigos combatentes, mas isso não está a acontecer para toda a gente. É o meu caso e o de muitos outros», lamentou.

O antigo combatente mostrou-se particularmente crítico em relação ao funcionamento dos apoios anunciados pelo Estado. «Os governantes dizem que já deram tudo, mas isso é mentira. Há muito trabalho a fazer, porque nem toda a gente está a conseguir usufruir desses direitos», lamenta.

Também José Reis considera que muitos apoios acabam por não responder às necessidades. «As coisas são muito bonitas no papel, mas, depois, na prática, não funcionam bem assim». O antigo combatente admitiu mesmo que muitos veteranos se sentem esquecidos pelo país. «Nós somos uma das gerações esquecidas. Não só pelos governantes, mas também por grande parte da sociedade mais jovem, que muitas vezes não conhece o que foi a guerra».

José Reis recordou ainda que muitos militares só receberam distinções décadas depois do fim do conflito. «Há medalhas que foram atribuídas nas cadernetas militares e que nunca chegaram a ser entregues. Em muitos casos, são agora as viúvas que as recebem», relatou.

Questionados sobre a importância de transmitir esta memória às gerações mais novas, os entrevistados defenderam que os jovens deveriam conhecer melhor a realidade da Guer­ra do Ultramar, embora reconheçam a dificuldade em revisitar experiências traumáticas. «Nós não conseguimos esquecer o que passámos, mas também não temos vontade de reviver certas memórias, porque foram situações muito violentas», explicou José Reis.

No final da entrevista, Gil Miranda fez questão de destacar o apoio prestado pela autarquia de Oliveira do Bairro, que disponibilizou instalações e ajuda financeira ao núcleo. «O município colabora connosco para conseguirmos manter esta casa aberta e continuar a atender esta camada social da sociedade», afirmou.

Entre apoios considerados insuficientes, burocracias e o peso das memórias da guerra, os antigos combatentes da Bairrada deixam uma certeza, nas palavras do presidente Gil Miranda: «Décadas depois do fim do conflito, continuamos a lutar para que o país não esqueça o sacri­fício de quem combateu». |

Maio 14, 2026 . 10:45

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