
Vale a pena abrandar para ver «a pele das nossas fachadas»
Patrícia Sarrico desliza os dedos suavemente pela superfície de um azulejo numa casa da Rua José Rabumba, no centro de Aveiro, e convida o pequeno grupo que a acompanha a fazer o mesmo. As fachadas de muitos edifícios estão revestidas por estes pequenos artefactos cerâmicos, que passam despercebidos à nossa passagem indiferente. Mas o olhar treinado e apaixonado desta técnica de museus da Câmara de Aveiro faz-nos dedicar uma observação atenta a este património secular – e eis-nos a sentir as suas texturas e a contemplar os seus formatos, desenhos e cores.
A visita guiada “À descoberta do azulejo de Aveiro”, promovida no Dia Nacional do Azulejo no âmbito das Festas do Município, é um exercício de atenção. E de desaceleração também - não precisamos de chegar rapidamente do ponto A ao ponto B; pelo contrário, caminhamos vagarosamente, escutamos e observamos sem a urgência de alguma coisa à nossa espera. Esta deambulação a pé pelas ruas da cidade é um antídoto contra o veneno da pressa e da impaciência.
O roteiro aconteceu no Dia Nacional do Azulejo, a 6 de maio, instituído à luz do projeto SOS Azulejo do Museu da Polícia Judiciária. Este programa nasceu da necessidade de combater a grave delapidação do espólio azulejar português devido a furtos, vandalismo ou incúria. «É um dia de celebração deste património», diz Patrícia Sarrico, «mas também de alerta para a sua salvaguarda».
O ponto de encontro é o Museu da Cidade, entre a Ponte-Praça e o Rossio. É aqui que a técnica municipal dá as primeiras explicações. Diz que, não tendo origem portuguesa, o azulejo adquiriu aqui uma «expressão muito identitária» a partir do momento em que foi introduzido no país, no início do século XVI. Durante um longo período esteve açambarcado pela Igreja e pela nobreza. «Só no século XIX é que o azulejo vem para a rua», conta.
Saímos nós também para a rua. Damos 15 passos em direção à outra margem da estrada, postamo-nos de costas para o canal da ria e olhamos para a fileira de fachadas do casario à nossa frente. «Esta é uma boa frente da azulejaria de Aveiro», comenta Patrícia Sarrico apontando para as casas da Rua João Mendonça e da Rua Dr. Barbosa de Magalhães - aqui existem muitos edifícios azulejados, com peças de diferentes épocas e estilos. Chama a atenção para o próprio Museu da Cidade, com azulejos da Fábrica da Fonte Nova, a primeira a ser fundada em Aveiro, em 1882, ou para o antigo edifício da Cooperativa Agrícola, um ex-libris da Arte Nova local.
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