
Há 77 anos, a vila do Luso tornou-se um marco da vida clandestina
Álvaro Cunhal e Sofia Ferreira moraram no Luso entre novembro de 1948 e março de 1949. Mas, na realidade, explica Lurdes Carvalho, «Álvaro Cunhal e Sofia Ferreira não existiam» - ambos pisaram o chão do Luso como Manuel e Elvira. Nos anos 1940, a vila era já uma «estância termal e de veraneio consolidada», diz a técnica da Câmara da Mealhada enquanto guia um grupo de seis pessoas até à pequena moradia que o par de dirigentes comunistas clandestinos ocupou até à sua prisão pela PIDE, a 25 de março.
A região era rica em casas clandestinas - houve dirigentes do PCP escondidos na Vacariça, em Macinhata do Vouga e no Vale da Mó. Mas o Luso foi escolhido pelos comunistas pelo seu «grande movimento» de pessoas, que lhes permitia passar despercebidos. «Este é o sítio certo para uma pessoa se esconder no meio da gente», diz Lurdes Carvalho, que desde 2025 faz visitas temáticas até à casa que Manuel e Elvira habitaram por cinco meses. Trata-se de um percurso, entre o posto de turismo e a moradia, situada no Casal de Santo António, no Luso de Além, como era então conhecida aquela zona, desenhado para «perceber como era a clandestinidade», explica.
O Luso de Além não foi escolhido por acaso. Era «um ponto estratégico a caminho da saída da vila», conta a técnica municipal. Numa época em que «toda a gente alugava as suas casas», Manuel e Elvira, fazendo-se passar por um estudante de Direito em convalescença e a sua mulher, optaram por um local discreto e mais afastado do centro movimentado da vila. «Em caso de emergência teriam tido oportunidade de fugir», diz. «Tudo é escolhido com rigor e precisão», mais ainda tratando-se da cabeça da estrutura comunista, então com 35 anos e membro do Secretariado do partido, e de Sofia Ferreira, que se havia juntado ao PCP em 1945 e abraçado a vida clandestina no ano seguinte.
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