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Pilar 4: histórias da queda de uma ponte

Há 25 anos, a Ponte Hintze Ribeiro, em Entre-os-Rios, ruía e causava a morte de 59 pessoas. Através de um roteiro de 25 lugares, o Diário de Aveiro construiu uma memória daquela noite

Saímos de Aveiro numa sexta-feira de sol após semanas de vento e chuva, como se fosse primavera em fevereiro. Vamos, à margem de auto-estradas, por Oliveira de Azeméis, Vale de Cambra e Arouca. Quando chegamos à escultura Anjo de Portugal, o contador do carro mar­ca 120 quilómetros. O rio está diante de nós. Aqui, há 25 anos, uma ponte caiu.
Neste ponto do seu caminho, o Rio Douro contorce-se numa dobra em forma de ferradura. Estas águas são a fronteira a­quática entre Aveiro e o Porto. Do lado de cá, Castelo de Paiva é um ponto no mapa que deixou de ser incógnito a 4 de março de 2001 - é uma daquelas terras tornadas célebres pela tragédia. Ganhou, naquele dia, uma identidade macabra.
Um autocarro e três auto­móveis foram engolidos pelo rio quando o tabuleiro da Pon-te Hintze Ribeiro desabou após o colapso do pilar 4. Naquele domingo morreram 59 pessoas. Uma mulher de 63 anos foi a primeira a ser enterrada, dois dias depois, em Sardoura. Mas 36 funerais nunca foram feitos - os corpos nunca apareceram.
Estes acontecimentos perpetuam-se no imaginário coletivo pelos números. Mas os números não contam histórias. Augusto conta uma história. O padre José conta uma história. André conta uma história. Conceição conta uma história. Familiares, amigos, socorristas, professores, autarcas contam uma história. Percorremos cen­­tenas de quilómetros atrás delas. Através de um roteiro de 25 lugares construímos, por entre a geografia fluvial e serrana de Castelo de Paiva, uma memória daquela noite sinistra.

 

Lugar#1

A Ponte Hintze Ribeiro, que assegurava a ligação entre os concelhos de Penafiel e Castelo de Paiva, foi construída entre 1884 e 1887, segundo projeto de António de Araújo e Silva (1843-1898). Este engenheiro, natural de Oliveira de Azeméis, foi Diretor das Obras Públicas do Distrito de Aveiro e projetou muitas obras na região, entre pontes, igrejas, quartéis ou teatros. Construída por uma empresa belga, a ponte de Entre-os-Rios tinha um tabuleiro metálico de cerca de 300 metros sobre seis pilares de pedra, devendo o seu nome a um homem que foi ministro e chefe de Governo. Ruiu 114 anos depois.

 

Lugar#2
Dantes, o adro da igreja de Oliveira do Arda era em terra batida. «Brincávamos muito aqui», recorda André Silva, que hoje tem 35 anos. «Éramos muitas vezes chamados à atenção para não jogarmos à bola ou andarmos de bicicleta neste sítio», um dos lugares onde as crianças se juntavam fora da escola. «Não tínhamos tanta tecnologia. A nossa rede social era estarmos presentes uns com os outros», recorda.
Este jovem empresário tinha dez anos quando Castelo de Paiva foi sacudido pela queda da ponte. Andava na escola de Oliveira do Arda, no quinto ano, na telescola. Flávia e Bruno, que morreram no acidente, frequentavam a mesma escola.
«Há um episódio que guardo sempre da Flávia», conta - foi a primeira vez que rachou a cabeça. «Numa correria, ela deu-me um encontrão e eu bati com a cabeça num armário e levei uns quatro ou cinco pontos. Ficou uma marca até hoje. Obviamente que não foi propositado, éramos crianças, mas nos dias seguintes recordo o cuidado dela comigo».
Com o seu sotaque afrancesado e o cabelo comprido, Bruno, por sua vez, «era o miúdo fixe da escola», aquele que «era sempre escolhido pa­ra ser da equipa de futebol», recorda. «Lembro-me de um outro amigo dizer que achava que o Bruno tinha saltado do autocarro e que estava agarrado na margem à espera que nós o fôssemos buscar», conta. «É uma frase que nunca mais esqueço».
No domingo do acidente, André não viu caras habituais na missa, aquelas que estavam a caminho das amendoeiras em flor. Nos dias seguintes começou a perceber: «Foi aquela pessoa, e foi aquela pessoa, e foi aquela pessoa».
As crianças ficaram num limbo, numa encruzilhada. «Éramos crianças e estávamos apenas a ser crianças, a brincar, mas não sabíamos se podíamos ser assim felizes, porque vivia-se um momento de luto e nós sentíamos isso», diz. «Quase que não podíamos viver uma infância livre». Perguntamos se o acidente lhes roubou a infância. «Não deixámos de ser crianças, mas fomos forçados a ser uns pré-adolescentes com 10 anos e conviver com esta realidade».
As crianças não foram à escola nos dois dias seguintes. «No regresso, caímos na realidade de que realmente faltavam dois amigos de recreio», diz. Um dia, os professores colocaram duas cartolinas no quadro de lousa com as fotografias dos dois meninos, para os colegas escreverem dedicatórias. «Os professores perguntaram quem é que era o primeiro e ninguém se atreveu a levantar e a escrever», recorda André. Um deles contornou a sala, em que as crianças estavam sentadas em “U”, e passou o marcador a André. «E disse: vai lá, vai escrever alguma coi­sa». André foi o primeiro. Uma das colegas era prima do Bru­no e «demorou muito tem­po a regressar à escola» - perdera primos, tios e avós.
A tragédia teve efeitos tão violentos que, um ano depois, André viu a mãe num pranto junto ao rio. «É uma imagem que me marca profundamen­te», admite. «Lembro-me de ser a primeira vez que vi a minha mãe a chorar compulsivamente por causa do acidente». Proprietária de uma sapataria na freguesia, conhecia muitas das pessoas falecidas na tragédia.
«Passámos a ver muito mais gente de preto, sempre com um olhar muito lacrimejante», recorda. «De tanto chorar», muitas pessoas ficaram com marcas físicas nos rostos. «A partir daquele dia ficaram com aquele olhar de quando acabámos de chorar, com aquele contorno vermelho» à volta dos olhos.
As sequelas sentem-se a vários níveis. «Muita gente ainda hoje não come lampreia, nem sável do rio», diz André. Circular pela ponte nova, construída ao lado da antiga, também traz reminiscências. «Eu só passo em último recurso. E quando passo, até vou em excesso de velocidade para passar rapidamente».
Para todos, de uma maneira ou de outra, foi preciso «reaprender a viver», resume.
André pergunta se nos pode mandar um texto que escreveu sobre o acidente. É um exercício de catarse que quer partilhar. Manda-nos o texto por “WhatsApp”. Acaba assim: «Em paz estão todos os que perdemos, mas que eternizamos nes­­te dia».

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Há 25 anos, a Ponte Hintze Ribeiro, em Entre-os-Rios, ruía e causava a morte de 59 pessoas

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Março 4, 2026 . 07:45

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