
O estranho caso do Museu Nacional da Mealhada
O Museu Nacional da Ciência e da Técnica teve uma existência curta e atribulada. Foi pensado para ter sede em Coimbra e pólos espalhados pelo país. Uma dessas extensões foi criada no Carquejo, Mealhada - mas nunca funcionou. Esta reportagem, que seria sobre a história do museu, transformou-se em mais do que isso. É também a história de uma saga. Foi preciso percorrer os labirintos da administração pública portuguesa para descobrir a quem pertence o edifício do Carquejo, abandonado há muitos anos à margem da N1. E, mesmo assim, a conclusão parece tudo menos óbvia. Hoje, na primeira parte deste trabalho, contamos as diligências efetuadas nas últimas semanas - para concluir que o imóvel parece vogar num limbo administrativo. Na segunda parte, a publicar nos próximos dias, dedicamo-nos à história do museu e do pólo da Mealhada.
Parte 1
À saída da Mealhada, para quem circula na N1 na direção de Coimbra, um velho edifício em forma de “U” jaz incógnito do lado direito da via, quase colado ao alcatrão. Uma das paredes do interior deste “U” ostenta uma inscrição em letras de tamanho modesto, difíceis de decifrar para quem passa de automóvel. Nela lê-se “Museu Nacional da Ciência e da Técnica”. É intrigante. Um museu nacional? Na Mealhada?
A N1 é, naquele troço, uma via muito movimentada - milhares de automóveis e veículos pesados, daqueles camiões que parecem compridas serpentes com motor, passam ali diariamente. O edifício, a cinco quilómetros da Mealhada para sul, situa-se no Carquejo, numa zona de descampados, fábricas, empresas, bombas de gasolina e restaurantes de beira de estrada. Parece estruturalmente sólido, mas abandonado. Apesar da inscrição na fachada, a casa parece tudo menos um museu, muito menos um museu a funcionar. As portas revelam-se intransponíveis - não é possível entrar e vasculhar lá dentro. Alguns vidros estão partidos, mas as aberturas das janelas estão cobertas por chapas metálicas, impedindo observar o interior. Silvas abundantes cercam o imóvel e no terreno confinante um arame metálico com um sinal de passagem proibida é um ineficaz bloqueio à passagem de intrusos.
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