
Viagem ao mundo secreto dos cardadores de Vale de Ílhavo
Bem que tentámos a nossa sorte, mas acabámos por ficar pela sede d’ Os Cardadores de Vale de Ílhavo - Associação Cultural e Recreativa, situada na Rua da Fonte, porque não é permitido ao “comum dos mortais” ir mais além. Ainda estávamos com esperança de entrar na tão propalada caserna, «uma antiga casa da eira, que há no meio das terras e que nada tem a ver com a associação criada «em finais de 2005, inícios de 2006, para a preservação da nossa identidade», como fizeram questão de deixar claro.
Ali, um mês antes do Carnaval, os cardadores de Vale de Ílhavo reúnem-se todos os dias à noite, exceto ao domingo (reservado para descanso e para se estar com a família), a fim de manterem uma tradição cujas origens ninguém conhece (nem eles próprios) o mais «pura e autêntica» possível. «Desconfia-se que venha da América do Sul. Alguns remetem a sua origem para os índios», contaram à nossa reportagem Daniel Santos (42), Fernando Pinho (39), Fábio Oliveira (36) e João Vidal (28), todos cardadores já com uma vasta experiência.
«Temos leis próprias», passadas de boca em boca
O mistério impera, mesmo quanto aos primórdios. «Vai ser muito difícil chegar às origens», disseram estes quatro homens de Vale de Ílhavo, prosseguindo: «Esta é uma tradição que não foi criada de um dia para o outro e com o passar do tempo foi-se aperfeiçoando. Toda a estrutura está muito bem-feita. Tudo tem um significado e um objetivo. Temos leis próprias, mas não há nada escrito. É tudo passado de boca em boca».
«Na caserna», continuaram, «não há eletricidade nem tecnologia (telemóveis, rádio, etc.). Usamos candeeiros a petróleo, como antigamente, e a preparação poderá durar toda a noite. Há quem já tinha ido de lá diretamente trabalhar [risos]». Ali homens (solteiros e casados), que têm de ser obrigatoriamente de Vale de Ílhavo, fazem as máscaras exuberantes com que saem às ruas para “cardar”, maioritariamente mulheres solteiras, com uma carda que outrora «chegou a ter picos e lixa [como aquelas com que se cardava a lã das ovelhas]», mas que agora é composta por tábuas lisas».
«Os olhos e a boca são feitos de cortiça. A face é de lã. O nariz é de tecido e enchido com o resto da lã. Os bigodes são feitos de pelo de rabo de cavalo, burro ou boi. Depois há o papel. Na parte de trás [da máscara], prendem-se fitas de papel coloridas, curtas e estreitas [as chamadas paródias]. E nas costas do cardador são cozidas à sua indumentária, fitas largas e compridas do mesmo papel», descreveram, enquanto iam bebendo uma “Mini” (cerveja), acrescentando que as vestes (roupa interior feminina à moda antiga) «são feitas por costureiras».
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