Última Hora
Pub

Em Couto de Esteves, Seguro e Ventura arrecadaram o mesmo número de votos

Os dois candidatos presidenciais obtiveram cem votos cada, mas foi a Marques Mendes que calhou a vitória. Fomos até à freguesia para conhecer o sentido de voto dos locais

As curvas e contracurvas apertadas, aliadas à chuva forte e ao granizo, obrigam a uma con­dução prudente e vagarosa, ainda que o limite de velocida­de seja de 90 quilómetros por hora. É a tabuleta de boas-vindas, à chegada desta freguesia do concelho de Sever do Vouga, que denuncia o local a que chegámos: Couto de Esteves.

Com cerca de mil habitantes, as ruas deste território parecem desertas, com a exceção dos poucos veículos que passam ocasionalmente. No Café/ Mercearia Belita, um dos únicos dois estabelecimentos a­ber­tos na freguesia durante a tarde da passada sexta-feira, a proprietária, Maria de Lurdes, serve um café ao fornecedor que veio deixar-lhe mercadorias.

Quando questionada, a gerente admite desconhecer que Couto de Esteves foi a única freguesia do distrito de Aveiro em que os candidatos que passaram à segunda volta das eleições presidenciais obtiveram exatamente o mesmo número de votos. Na urna deste territó­rio, António José Seguro e André Ventura arrecadaram cem votos cada, mas foi Marques Mendes que saiu vitorioso, com 109. No mesmo concelho, na freguesia de Talhadas, o socia­lis­ta conseguiu mais um voto que o líder do Chega: 196 con­tra 195.

Natural de Couto de Esteves, Maria de Lurdes toma conta do Café/Mercearia há cerca de meio século e admite que o negócio já foi melhor. Com a per­da de dinamismo ao longo dos anos, o lucro já nem chega pa­ra pagar as contas. Ao Diário de Av­eiro, a mu­lher de 75 anos con­fessa que nestas eleições se sentiu indecisa até ao mo­men­to em que segurou na caneta na me­sa de voto, mas acabou por deixar a cruz no candidato apoiado pelo Partido Socialista (PS). «Nas poucas vezes que o vi a falar na televisão achei que seria a pessoa mais sensata e a que mais caiu na minha manei­ra de ser», diz, referindo-se a Seguro.

Sentido de voto diferente te­ve o marido, Manuel Mendes, que pelas 12.30 horas chegou ao estabelecimento para almoçar. «Votei em Gouveia e Me­lo, porque achei que era uma pessoa responsável e gostei do trabalho dele durante a pandemia», declara, mostran­do-se surpreso pelo «mau» resultado do antigo almirante a nível nacional.

Ainda que «vote sempre» no Partido Social-Democrata (PSD) nas legislativas, o severense sustenta que nas eleições autárquicas e presidenciais as pessoas contam mais do que os partidos, tanto que entre Marques Mendes e Seguro, o homem de 78 anos confessa que votaria no socialista. Para a segunda volta, no dia 8 de fevereiro, o severense vai seguir o caminho traçado pela esposa e depositar a sua confiança em António José Seguro, mesmo que considere que o líder do Chega tenha «capacidade para governar bem».

Para muitos, André Ventura é sinónimo de «mudança»

Com 81 anos, Sebastião Coutinho é um dos escas­sos transeuntes que se avistam nas ruas de Cou­to de Esteves. «Qua­se ninguém mo­ra aqui, são só velhotes», diz, desani­ma­do, o mo­rador, que es­te­ve emi­gra­do du­ran­te qua­se trin­ta anos da sua vida. O seu vo­to, no dia 18, ajudou Marques Men­des a alcançar a vantagem na freguesia, ainda que admita não gostar do candidato. «Quando voto, voto no PSD, mas já sabia que ele ia perder. Durante anos, Marques Mendes fez comentário político na televisão e falou muita bobagem do partido e de alguns sociais-democratas, como o Pedro Passos Coelho», sustenta.

Para a segunda volta, o se­verense não tem dúvidas em quem vai depositar o seu voto, ainda que sem convicção. «Com certeza que se votar será no António José Seguro, se não é o melhor [candidato] é o menos ruim. O outro indiví­duo não tem caráter nem perso­na­lidade».

No Café “O Júnior”, o segundo estabelecimento aber­to na freguesia, Adelino Gaspar parece subscrever o sentimento do concidadão acer­ca de André Ventura. Em pé, junto ao balcão do estabelecimento, cheio de mesas e cadeiras vazias, o homem de 79 anos partilha que sempre votou no PS. «Foi uma decisão que tomei em Moçambique, onde fiz a tropa, depois do 25 de Abril», conta. Nestas presidenciais, o seu sentido de voto não foi diferente e na segunda volta não será difícil decidir. «Durante toda a minha vida respeitei sempre os partidos todos, mas atu­al­men­te não tenho respeito por um», disse, referindo-se ao Chega, acrescentando que «mui­tas pes­soas são capazes de ter votado em André Ventura, mas não o confessam».

Não é o caso de António Tavares, que encontramos no regresso às ruas, em frente à sede da junta de freguesia e da Extensão de Saúde local, em que apenas um dos vários lugares de estacionamento está ocupado por uma carrinha. Natural de Santa Maria da Feira, o morador de 57 anos está a resi­dir em Couto de Esteves des­de outubro do ano passado e, apesar de ser militante do CDS-PP, votou no líder do Chega.

Desapontado com a saída do partido, em sede própria, da Assembleia da República, em 2022, e do «tratamento» de Marcelo Rebelo de Sousa para com os democratas-cristãos, o feirense traça um diagnóstico negativo das condições de vida a nível distrital e sublinha que estas são ainda piores nos concelhos mais afastados do litoral. «Há uma distorção de cultura de nível básico», critica.

Decidido para a segunda vol­ta, António Tavares acredita que André Ventura é necessário para instaurar uma «mudança» no país, seja na presidência ou enquanto primeiro-ministro. «André Ventura tem feito muita força e queria que ele subisse mui­to. Acho que se tem que meter no meio dos dois partidos [PS e PSD]». |

Janeiro 26, 2026 . 08:30

Partilhe este artigo:

Junte-se à conversa
0

Espere! Antes de ir, junte-se à nossa newsletter.

Comentários

Fundador: Adriano Lucas (1883-1950)
Diretor "In Memoriam": Adriano Lucas (1925-2011)
Diretor: Adriano Callé Lucas
94 anos de história
bubblecrossmenuarrow-right