
Casa Martelo fecha portas com certeza de dever cumprido
Um sonho do avô e quase 80 anos depois, a Casa Martelo não fechou apenas as suas portas. Pôs fim a uma “luta” desigual que começou a ser travada ainda antes da pandemia da COVID-19 chegar, quando decorriam as obras de construção do parque de estacionamento subterrâneo na Praça Marquês de Pombal e do túnel junto à Sé de Aveiro. «Foram muitos anos de obras, que afastaram as pessoas desta zona e que mataram muito comércio», comentava Marina Vieira ao Diário de Aveiro, numa mesa de café a poucos metros da “casa” que foi sua nos últimos anos.
Arqueóloga e docente universitária, foi a morte precoce do pai que a empurrou para a gerência do negócio de família, fundado pelo avô em 1950. Aprendeu tudo, fez formações sem parar, “bebia” dos colaboradores mais experientes com a sede e a pressa de aprender a gerir uma empresa que chegou a passar os 15 empregados, mas as obras nas imediações deram um «duro golpe ao negócio» e a pandemia só veio agravar. «Todos nós começámos a ter noção que a faturação estava a cair», mas ninguém cruzou os braços. Apostaram em publicidade, em vídeos para as redes sociais, fortaleceram a presença no digital e até abriram uma loja “online”, «um processo complicadíssimo e moroso, porque estamos a falar de milhares e milhares de peças que têm que ser registadas, fotografadas e disponibilizadas para venda», explicou. Também reforçaram a prestação de serviços (iluminação, canalização, troca de fechaduras...) e até ponderaram sair do centro de Aveiro para um armazém nos arredores, «mas a essência desta casa sempre foi o comércio de proximidade, é isso que sempre nos distinguiu e nos valorizou», e Marina não quis desviar-se desse eixo, acreditando que «iríamos perder a centelha».
Fizeram de tudo... mas a verdade é que a cidade não respondeu e os clientes foram desaparecendo. Por isso mesmo, diz com bastante realismo que as muitas centenas de comentários e “likes” que foram surgindo às primeiras notícias do encerramento da Casa Martelo «dizem-me muito pouco. O que eu realmente gostava era que os clientes se mantivessem e novos clientes chegassem, o que não aconteceu». «E avisámos», atira, referindo-se a um filme que lançaram em 2021 em torno da metáfora de um pião que não devia parar de girar. «Fizemos de tudo», garantiu ao Diário de Aveiro, junto a uma praça que lhe foi familiar durante muitos anos mas que se foi transformando.
Olhando em redor recorda «o Governo Civil onde funcionavam vários serviços, sapatarias de referência, lojas de pronto a vestir, o Paga Pouco, que era a loja de excelência das famílias aveirenses, a Telecom, onde eram atendidas dezenas de pessoas diariamente... isto era um centro comercial a céu aberto, com movimento durante todo o dia. Era um ecossistema de comércio e serviços que faliu, a zona perdeu centralidade», lamenta. O cenário mudou, os hábitos são outros e a concorrência de grandes superfícies na mesma área de negócio, voraz. «Nós até pagávamos o parque de estacionamento aos clientes, mas eles não queriam e depois queixavam-se de falta de estacionamento...», num misto de tristeza e impotência, incapaz de lutar contra tudo.
Por fim com seis colaboradores, «as pessoas foram saindo e já nem os substituía», Marina decidiu-se pelo encerramento «quando já não dava mais», mas com a certeza de que «fizemos tudo, tudo o que estava ao nosso alcance». E “tira o chapéu” à equipa que esteve com ela até ao fim, «sempre empenhada e positiva».
Será um triste final feliz para uma “casa” que serviu Aveiro durante quase 80 anos e que, como tantas outras, não conseguiu resistir às pressões. Reabrir noutro local «está fora de questão», avançou, agora com tempo e disponibilidade mental para retomar um Doutoramento que se viu forçada a interromper para se tornar empresária na área das drogarias.










