Última Hora
Pub

«Gostaria que daqui a 30 anos as festas continuassem a ser identitárias de um bairro»

Osvaldo Pacheco foi o juiz escolhido para encabeçar a organização das festas durante dois anos. Em entrevista, fala-nos da preservação de tradições e de um Bairro da Beira Mar desertificado

Foi com muita hesitação que Osvaldo Pacheco aceitou ser juiz das Festas em Honra de São Gonçalinho, sendo a primeira vez que tem responsabilidades diretas sobre a organização. Caracterizando as celebrações co­mo «multidimensionais», o juiz sublinha que o São Gonçalinho é mais do que uma festa religio­sa. «Para além de cultural, diria mesmo que existe uma dimensão de preservação histórica de costumes». Em entrevista, o juiz fala-nos sobre o respeito pelas tradições e os desafios de o conciliar com a inevitável marca própria que cada grupo de mor­domos traz consigo. Sobre o futuro, Osvaldo Pacheco demonstra-se preocupado com a «desertificação» do Bairro da Beira Mar, que está a perder habitantes, os «guardiães» desta cultura.

Diário de Aveiro: Por que motivos aceitou ser o juiz?
Osvaldo Pacheco: Quem me passou o ramo foi o juiz anterior, o Nuno Portela, que tinha feito o convite muitos meses antes e eu tinha dito redondamente que não, mas ele foi insistindo. A verdade é que foram a minha filha, a minha mulher e esse meu amigo os principais responsáveis por ser mordo­mo. Foram eles que, dentro do meu núcleo duro, foram minando as possibilidades de dizer que não. Vou confessar-lhe que a minha esperança era a de que não fosse juiz, porque ser mordomo já dá muito trabalho e responsabilidade, pelo que ser juiz multiplica ambos. Mas percebi, ao fim de algum tempo, que o grupo acha­va, até por ser o mais velho, que deveria ser o juiz e acabei por aceitar.

Definiu o São Gonçalinho co­mo uma celebração multidimensional. Em que sentido?
A forma como o São Gonçalinho é vivido tem várias perspetivas. Eu, que participo ativamente nas festas há uma série de anos, encontro pessoas que são movidas pela fé. Mas, para além dessa fé inquestionável, existe também uma perspetiva de cultura própria do bairro, que as pessoas muito prezam e mui­to fazem por manter. Há uma dimensão cultural que temos de ser sempre muito cautelosos em respeitar, bem como os hábitos que são centenários e que as pessoas prezam muito. Há também, obviamente, a dimensão lúdica, que está à vista de todos e que faz com que as pessoas se divirtam muito. Para a­lém de cultural, diria mesmo que existe uma dimensão de preservação histórica de costu­mes. As múltiplas dimensões veem-se muito quando se contacta com as pessoas mais velhas: quando falamos, por e­x­em­plo, com as mordomas, as dimensões vêm ao de cima. Elas vivenciam uma festa de reencontro, porque recebem as famílias em casa, vivenciam a fé e vivenciam também a cultura e os hábitos. São as primeiras, antes de todas, que zelam pelas tradições.

Para continuar a ler este artigo

Se ainda não é
nosso assinante:
Assine agora
Se já é nosso
assinante:
Inicie sessão
Janeiro 7, 2026 . 08:00

Partilhe este artigo:

Junte-se à conversa
0

Espere! Antes de ir, junte-se à nossa newsletter.

Comentários

Fundador: Adriano Lucas (1883-1950)
Diretor "In Memoriam": Adriano Lucas (1925-2011)
Diretor: Adriano Callé Lucas
94 anos de história
bubblecrossmenuarrow-right