
Revolução chega ao Teatro Aveirense com a Red Cloud
O Teatro Aveirense acolhe, a partir de amanhã e até domingo, a estreia absoluta de “Precópio”, a mais recente produção da Red Cloud Teatro de Marionetas. O espetáculo revisita o turbulento ano de 1975 com irreverência, energia e espírito satírico, combinando música, vídeo e humor num cenário onde um simples bar se converte na metáfora de um país inteiro. As sessões estão marcadas para amanhã às 21.30 horas, para dia 6 às 18 horas e para dia 7 às 17 horas.
Com texto e encenação de Jorge Louraço Figueira, a peça inspira-se no mítico Bar Procópio, em Lisboa, palco de inúmeras conversas e conspirações no pós-25 de Abril. Mas, longe de procurar uma reconstituição solene da história, o espetáculo prefere sublinhar o absurdo, a vitalidade e a criatividade desse período decisivo.
O encenador explica que a ideia nasceu da saturação de espetáculos solenes sobre o 25 de Abril e o Processo Revolucionário em Curso (PREC). «Havia muitos espetáculos e nós achámos que faltava algo que brincasse com os aspetos mais cómicos e mais improváveis». A seu ver, monumentalizar a Revolução é negar-lhe a vitalidade. «Monumentalizar o 25 de Abril é tirar-lhe a essência revolucionária. Queríamos celebrá-lo sem o tornar chato». A escolha das marionetas e da miniaturização do espaço surge, assim, como um gesto artístico e político. «Reduzir a experiência do Procópio a uma escala manuseável fazia sentido. Como se o bar fosse Portugal e a revolução acontecesse ali».
Uma nova visão de Portugal
Entre 11 de março e 25 de novembro de 1975, tudo muda e no palco também. No bar imaginado, passam golpes falhados, tensões militares, discussões ideológicas e o famoso Verão Quente, sempre filtrados pelo humor, o absurdo e por números de cabaré.
As personagens são arquétipos que espelham as forças que moldaram e moldam ainda hoje a realidade portuguesa. «São um trio que resume três forças muito grandes: o conservadorismo que atravessou da ditadura para a democracia; os portugueses divididos entre patriotismo e vontade de mudança; e os que vivem do trabalho e lutam pela mobilidade social», resume o encenador.
Equilibrar humor e densidade histórica é intencional. «O humor tem de ser dirigido primeiro contra nós próprios», diz Jorge Louraço, desde que mantenha a flexão.«Mas também temos de ridicularizar sem piedade os hipócritas, os lobos que vestem pele de cordeiro».
Questionado pelo grande objetivo da obra, o encenador mantém a linha de «fazer pensar sem perder o prazer do espetáculo». «Queremos rir de tudo isto sem cair no ridículo, mantendo sempre ironia e humildade».
Aqui, a música estrutura a narrativa: há uma canção original e versões de temas conhecidos, transformando “Precópio” num verdadeiro espetáculo de variedades. «É quase uma playlist histórica», comenta o encenador. «As canções conduzem os números cómicos e permitem fazer uma revisão dos últimos 100 anos, como se rebobinássemos uma cassete com as músicas preferidas do país».
Já o vídeo, com imagens de arquivo da RTP, funciona como contraponto factual. «É uma espécie de consciência do espetáculo, lembrando episódios reais e contextualizando as nossas liberdades poéticas».
No final da entrevista, o encenador revela qual o impacto desejado. «Gostava que as pessoas pusessem em causa ideias adquiridas e olhassem a vida da região e do país de outra maneira. Que se distanciassem um pouco de si próprias e pensassem de forma mais livre».
Produzido pela Red Cloud Teatro de Marionetas, em coprodução da Câmara de Aveiro, “Precópio” ambiciona circular futuramente por outras salas do país.











