
Voluntários hospitalares: «só não fazemos o pino»
Susana saiu da sua casa em Águeda, caminhou durante cinco minutos até à estação da cidade e apanhou a automotora das 15.38 horas. Chegou a Aveiro às 16.15 horas, desceu a Avenida Dr. Lourenço Peixinho, passou uns minutos na livraria Bertrand e prosseguiu até ao Hospital Infante D. Pedro. Aí, logo à entrada, no pequeno edifício da Liga dos Amigos do Hospital, sentou-se a ver uma série no telemóvel.
Susana tem 17 anos. «Faço 18 para a semana», diz. Natural de Viseu, estuda Gestão Pública em Águeda, na Escola Superior de Tecnologia e Gestão. Como pertence à equipa de voleibol do seu curso, que disputa a Taça UA, vem a Aveiro com alguma regularidade para jogos contra equipas adversárias. Uma vez por semana, porém, os carris da Linha do Vouga transportam-na à cidade por outro motivo. A estudante é voluntária da Liga dos Amigos, cujas brigadas fazem visitas diárias aos doentes internados no hospital local.
Esta quinta-feira Susana está escalada para a visita das 18 horas. A ligação das 15.38 horas é a que lhe permite chegar a horas. «Depois disso», explica com a sua forma pausada de falar, «só tenho comboio cerca das 17.30 horas».
Susana é, por isso, a primeira a chegar. Sérgio, um bancário reformado de 68 anos, é o segundo. Os membros do grupo, perto de 15 para o horário das 18 horas, vão chegando a conta-gotas. Despem os casacos, guardam-nos nos cacifos e vestem batas ou coletes amarelos, a cor que identifica os voluntários – são conhecidos no hospital pelos amarelinhos. Assinam a folha de presença, formam grupos de dois ou três e encaminham-se para os diferentes serviços hospitalares onde atuam.
Venho testemunhar o seu trabalho e junto-me à equipa a quem foi destinada a Medicina II. Sigo atrás de Sérgio, Susana e Isabel, uma antiga técnica administrativa que é voluntária há 17 anos. «Tratei de três doentes terminais: o meu pai, a minha mãe e um primo», explica nos corredores do hospital. «Agora estou aqui».
Cada um vai contando a sua história. Susana, a benjamim do grupo, diz que a irmã faz voluntariado no hospital de Viseu e que ela própria quis fazer a experiência em Aveiro. «Falo com os pacientes, ajudo a alimentá-los… Tem sido interessante», conta. Esta é a terceira visita que faz, ainda como estagiária – o estatuto de voluntário efetivo só é alcançado ao fim de um ano.
Sérgio tem 68 anos. Nasceu no Rio de Janeiro, no Brasil, descendente de portugueses. «Pais, avós, bisavós… Todos portugueses», diz. Está em Portugal há 39 anos e fez carreira profissional na banca. Reformou-se em 2015. Em outubro de 2024 decidiu inscrever-se na Liga dos Amigos. «Queria ocupar algum do meu tempo livre», explica, «e tem sido uma experiência enriquecedora». Mas avisa que, ao lidar com a doença e a degeneração física, o voluntariado hospitalar requer firmeza mental. «Uma vez», lembra, «uma voluntária começou a chorar durante uma visita».
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