
«E vamos agora ter de ser governados por uma mulher, onde é que se viu isto?»
Às vezes fingimos surpresa quando alguém mais velho nos diz a idade, num inofensivo exercício de piedade. Mas no caso de Lurdes Breu a surpresa é genuína. O aspeto físico, a memória, a energia - nada nesta mulher denuncia a idade que tem. 85 anos, mesmo?
A 12 de dezembro de 1976 realizaram-se as primeiras eleições autárquicas em democracia. Apenas cinco mulheres, em 308 municípios, foram eleitas presidentes de câmara. Três das “cinco magníficas”, como ficaram conhecidas, pertenciam ao distrito de Aveiro: Lurdes Breu em Estarreja, Odete Isabel na Mealhada e Alda Victor em Vagos, falecida em 2018.
Naquele dia, em Estarreja, votaram 11.029 pessoas. O voto de Lurdes Breu foi depositado na escola de Avanca, onde morava e dava aulas. «Fomos para lá cedo e encontrámos uma fila imensa, esperámos mais de uma hora para votar», diz.
Nascida em Cantanhede e deslocada para Ovar por razões familiares, a sua ligação a Estarreja estabeleceu-se pelo casamento. «Quando tinha 20 anos», recorda, «casei e fui viver para Avanca, onde o meu marido tinha uma fábrica, uma latoaria de embalagens metálicas».
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