
Mulheres ao poder? Sim, mas (ainda) pouco
«Alguns homens», avisa Adriana Rodrigues, «ainda se sentem donos e senhores da política». «Mas são cada vez menos», diz a mulher que a 12 de outubro foi a candidata mais votada para a Assembleia Municipal de Vale de Cambra. Foram umas «eleições históricas» naquele concelho serrano do distrito, diz a deputada - pela primeira vez uma mulher venceu as eleições para a Assembleia Municipal e também pela primeira vez mulheres assumirão a presidência de juntas de freguesia.
Mas embora existam sinais encorajadores como o de Vale de Cambra, a desproporção entre mulheres e homens em cargos políticos ainda persiste. O Diário de Aveiro pegou nos resultados das últimas eleições autárquicas no distrito e fez contas. Alguns números saltam à vista: em 19 executivos camarários, em apenas um (Albergaria) o número de mulheres é superior ao de homens; há apenas duas presidentes de câmara e quatro presidentes de assembleia municipal; nas freguesias, só 17,8 por cento dos presidentes são mulheres; em vários municípios, não há uma única presidente de junta. Os exemplos multiplicam-se – apesar de progressos nos últimos anos, este é ainda um mundo (muito) mais de homens do que de mulheres. Catarina Silva, autarca de 39 anos em Mozelos, resume assim a situação: «há ainda muito trabalho a fazer».
A professora de Educação Física é a primeira mulher a dirigir esta freguesia de Santa Maria da Feira. O município, o mais populoso do distrito e aquele com maior número de freguesias, é um bom símbolo da realidade autárquica: das suas 28 juntas, apenas quatro são governadas no feminino. Das seis vozes femininas com quem o Diário de Aveiro falou parece possível extrair uma ideia geral: as coisas estão melhores mas ainda longe do ideal.
Catarina Silva fez parte do executivo nos últimos 12 anos – agora subiu de posto. Diz que foi uma escolha natural, não pelo seu «perfil político» mas pela experiência acumulada e por ser alguém «próximo das pessoas». Foi já isso, acredita, que a fez ser desafiada para entrar na vida política. «Há 12 anos fui convidada porque sabiam que eu era alguém que conhecia muita gente, porque estou muito ligada ao associativismo, e muito próxima das pessoas», conta.
Nunca fez planos, porém, para chegar tão longe. «Nunca pensei ser presidente», garante. A experiência como autarca tem sido «positiva» mas a exigência vai agora aumentar. «É preciso gostar muito da freguesia e estar disponível para ouvir e para resolver pequenos problemas. É muito desafiante mas também muito gratificante», diz. Concorrer a uma presidência «não é fácil», sobretudo quando a vida não está organizada para isso.
Na política sempre se sentiu igual aos colegas masculinos. «Nunca me senti inferior aos homens e como mulher sempre senti todo o apoio», assinala. Diz, ainda assim, que «há ainda muito trabalho a fazer» para uma igualdade plena. «Mas a ideia que a política é só para homens está a mudar», conclui.
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