
«Saio com um sentimento de missão bem cumprida»
Ribau Esteves é presidente da Câmara de Aveiro desde 23 de outubro de 2013. Abandona o cargo hoje, ao fim de 4.391 dias de exercício. No dia do adeus, o homem que foi o quinto líder do município aveirense em democracia fala do seu percurso de 12 anos nos Paços do Concelho. «Saio realizado e feliz», diz o social-democrata, de 59 anos, que assume o estatuto de «dinossauro ou senador» da política local. Deixa a vida política autárquica sem «qualquer nostalgia», mas com a porta entreaberta. «A vida dá muitas voltas e aprendi há muitos anos a não dizer “nunca mais”», diz. No futuro, será «um ex-presidente recatado».
Diário de Aveiro: Quer contar como se deu a sua entrada na vida política?
Ribau Esteves: Na família, a minha mãe era a única pessoa que tinha atividade política, como presidente de Junta de Freguesia da Gafanha da Encarnação, membro da Assembleia Municipal de Ílhavo e da Comissão Política Concelhia do PSD de Ílhavo. Como as reuniões eram à noite, cabia ao filho rapaz mais velho, eu, acompanhar a “mamã”. A minha atenção às reuniões foi despertando em mim o interesse e o gosto pelo debate político e pelo poder local, tendo, um certo dia, respondido afirmativamente ao desafio que me lançaram de fundar a Juventude Social Democrata de Ílhavo, o que fiz com mais uma dúzia de jovens. E assim começou a minha atividade política. Os meus primeiros cargos políticos foram vereador em regime de não permanência em Ílhavo e deputado à Assembleia da República.
Entrou para vereador da Câmara de Ílhavo em 1990. Tem uma vida autárquica já longa, de 35 anos. Já se considera um dinossauro da política local?
Nesse mandato fui vereador em regime de não permanência. A política profissional começa com a presidência da Câmara de Ílhavo, em janeiro de 1998. Na passagem para a presidência da Câmara de Aveiro, o intervalo foi apenas de 24 horas. São 28 anos seguidos de exercício de presidente de câmara e de várias outras funções no mundo do poder local, nomeadamente na CIRA [Comunidade Intermunicipal da Região de Aveiro] como presidente 22 anos, na Associação Nacional de Municípios Portugueses como vogal e vice-presidente 24 anos e no Comité das Regiões da União Europeia 12 anos. Todo esse percurso dá-me esse estatuto de dinossauro da política local ou de senador, como alguns gostam de referir.
A política deve ser profissão?
Não e sim. Existem muitas funções políticas que exigem dedicação a tempo inteiro, um exercício verdadeiramente profissional, como ser presidente de câmara, mesmo sendo os contratos a prazo de quatro anos. Sempre entendi a função de presidente de câmara como um exercício executivo da política, obreiro para qualificar os territórios e a vida das pessoas.
É um homem nostálgico, agora que está de saída da política autárquica?
Não tenho qualquer nostalgia nesta saída. Tenho o maior gosto de ter vivido estes 28 anos, os 16 em Ílhavo e os 12 em Aveiro, como presidente de câmara. E de sair por determinação da limitação de mandatos, com a qual concordo, realizado pelo sucesso do trabalho materializado em desenvolvimento, crescimento e qualidade de vida. Realizado e feliz pelo reconhecimento que os cidadãos têm pelo trabalho notável que realizei com as equipas que trabalharam comigo. É um sentimento de missão bem cumprida e de alegria pela vida vivida, que tenho em mim e que partilho com todas as pessoas com que partilhei de alguma forma este caminho que agora termina.
Sei que é favorável à limitação de mandatos. Se pudesse, porém, gostaria de se ter candidatado novamente?
Já o disse, e repito, para simbolizar o gosto que tenho pelo trabalho realizado e pelos muitos projetos que temos lançados e em execução em Aveiro: se eu condicionasse tudo e todos, faria mais um mandato como presidente da Câmara de Aveiro. Mas, com as condicionantes legais que temos, saio realizado e feliz.
Teve convites para se candidatar a alguma câmara nestas eleições?
Fui auscultado para me candidatar a várias câmaras e convidado para ser candidato a presidente de duas câmaras. Não aceitei, solicitando compreensão pela minha vontade de fazer outras coisas na vida, o que foi compreendido por quem me convidou. Tenho 59 anos e 28 de exercício de presidente de câmara: é tempo de outras experiências e vivências.
Tem planos para regressar à política local?
Saí da Câmara de Ílhavo sem a perspetiva de regressar. Saio da Câmara de Aveiro sem a perspetiva de voltar à câmara e ao poder local. Mas a vida dá muitas voltas e aprendi há muitos anos a não dizer “nunca mais”.
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