
Em cinco anos, Avó Carmo “vira” fenómeno nas redes sociais
Arrancámos, de carro, do centro de Aveiro e à medida que íamos fazendo a viagem, iluminados por um sol radioso, quase outonal, o rebuliço da cidade ia ficando para trás. Após sairmos da A25, seguimos pela EN 16 que serpenteia o Rio Vouga. Quilómetro a quilómetro, o barulho e a agitação foram dando lugar ao som dos pássaros, ao cantar dos galos e ao silêncio da água fluvial.
De repente, avistámos a antiga ponte ferroviária do Poço de Santiago, agora integrada na Ecopista do Vale do Vouga. Com cerca de 30 metros de altura, é uma das mais altas pontes em alvenaria da região e do país, prendendo inevitavelmente o olhar de quem a vê, mesmo ao longe.
Estávamos em Pessegueiro do Vouga. Já não faltava muito tempo para chegar ao Azibal, lugar de Sever do Vouga, onde, junto ao Ribeiro da Pena, vive a “nossa” Avó Carmo há mais de três décadas. Dizemos “nossa”, porque, conhecendo-a, é impossível não a “guardar” no coração para o resto da vida.
Chegámos uns minutinhos mais tarde do que a hora combinada. Na rua sem saída, lá ao cimo, estava o marido, Rogério da Conceição, ao portão, para nos receber. Maria do Carmo Henriques, a “nossa” Avó Carmo, apareceu pouco depois. Naquele “pedaço do paraíso”, fomos acolhidos com uma hospitalidade única, genuína. Com um brilho no olhar, que é coisa que rareia nos tempos de hoje.
Uma mulher do campo que continua ligada às raízes
Maria do Carmo e Rogério são gente da terra. A terra onde nasceram, mas também a terra que amanham para proporcionar o melhor que há no campo à família. «Tenho animais (porco, galinhas, frangos, coelhos, etc.). Semeio e planto batatas, planto couves, tomates, pepinos, feijão verde, nabos, nabiças, grelo e não sei mais o quê. Para mim e para os meus», contou a Avó Carmo, que em Sever do Vouga até é mais conhecida por “Maria do Rogério”, enquanto o marido andava aos figos pingo de mel para oferecer ao Diário de Aveiro.
Nascida há 72 anos «numa aldeia muito pequenina chamada Folharido, em Silva Escura», e no seio de «uma família muito humilde [e numerosa, com seis filhos]», ainda segue os passos da mãe, que «trabalhava nas terras». «A minha mãe também tinha vacas. Nós íamos para a escola e quando vínhamos íamos logo ver onde ela andava para ir ajudá-la nas terras que eram arrendadas», recordou, acres-centando: «Ela acabava por pagar mais (em milho, feijão, etc.) do que recebia. Mas mesmo assim éramos felizes».
A Avó Carmo andou na Escola Primária de Folharido. «Fiz a quarta classe», disse, «que era o que havia na altura». Com 11 anos, e até «para aí os 14 anos e pico», foi «trabalhar para o pinhal, acartar à cabeça madeira, e rolos. «Era cinco tostões de gente, mas foi para aí que fui», sublinhou.
Seguiram-se outros trabalhos, felizmente menos duros: trabalhou num café em Sever do Vouga, em casa de uma cabeleireira em Aveiro e, por último, na Pensão Bela Vista, «que era o melhor que havia aí na altura». Ali servia à mesa e por ali ficou até casar. Aliás, foi, precisamente, nesta pensão severense que conheceu Rogério, seis anos mais velho e «o grande amor da minha vida», com quem está casada fez ontem 54 anos. O casal tem três filhos e uma mão cheia de netos.
«Passei para ir buscar bebidas ou qualquer coisa e viu-o moreno (estava a chegar de Angola), com mais um pouquinho de cabelo do que tem agora e com um polo verde que lhe ficava a matar. Ainda me lembro de tudo» [risos], partilhou com a nossa reportagem, completando: «E pronto. Ele começou também a olhar, mas nem foi aí que falámos. Foi a seguir, na festa da Páscoa em Silva Escura que se faz todos os anos. Ele apareceu lá com uns amigos. Talvez porque já andava de olho em mim [risos]». Entre o namoro (Maria do Carmo era a única a quem a patroa permitia que namorasse na Pensão Bela Vista) e o casamento passaram nem dez meses: «Foi o tempo de ele ir à Alemanha ganhar algum dinheiro e vir. Quando ele veio casámos».
E ainda a propósito do casamento, partilhou que, no dia do enlace, «saí de Folharido e caminhei quatro quilómetros até à cabeleireira». « Saí de lá», prosseguiu, «e fui à padaria, a pé também, buscar um saco de pão para cem pessoas. Cheguei a casa: uma enfiou-me o vestido, outra o véu e outra não sei o quê e depois, fui a pé, mais quatro quilómetros, até Silva Escura. No fim do casamento, com as cem pessoas atrás, vim até Folharido, outra vez a pé».
Recém-casados, Maria do Carmo e Rogério foram «morar numa casinha baixinha, onde são agora as Finanças, no centro da vila. Mais tarde, mudámos para outra mais acima até que comprámos este terreno e fizemos aqui a nossa casa».
Do anonimato ao estrelato
Foi nesta casa, onde no jardim há uma oliveira que já existia ainda antes da construção, que, na passada segunda-feira, ela e Rogério acolheram de braços abertos a nossa reportagem. Sentada à sombra, rodeada por uma paisagem natural de cortar a respiração, que tem o privilégio de ver todos os dias, a nossa “estrela do TikTok” desvendou-nos como é que foi parar ao mundo das redes sociais. Tudo começou há cinco anos, em plena pandemia.
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