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«Temos orgulho de ser a maior pedra no sapato da maioria PSD/CDS»

João Moniz, candidato do BE à Câmara de Aveiro, não poupa críticas à governação de Ribau Esteves. Mas o PS também é visado.

João Moniz, candidato do Blo­co de Esquerda (BE) à Câmara de Aveiro, lamenta que tenha falhado a «oportunidade his­tó­ri­ca de fazer algo novo à esquer­da» no concelho. O partido desencadeou conversas com o PCP, o Livre e o PAN que, porém, não resultaram numa candidatura conjunta às autárquicas de outubro. Nessa negociação não entrou o PS por estar para lá da «linha vermelha» traçada pelos bloquistas, nomeadamente pela sua ação na área da habitação. O candidato, de 35 anos, investigador no Instituto de Ciências Sociais da Universidade de Lisboa, diz que o partido «tem um património de intervenção muito forte» em Aveiro, esperando que no «novo ciclo» político se­ja ampliada a sua representação nos órgãos autárquicos locais. A habitação e os transportes são dois dos grandes falhanços da governação da coligação PSD/CDS, avisa João Moniz.

Diário de Aveiro: Em 2017 foi eleito para a Assembleia de Freguesia de Esgueira e em 2021 para a Assembleia Mu­ni­cipal de Aveiro. Como tem sido a experiência autárqui­ca?
João Moniz: Essa experiência é uma marca que distingue a candidatura do Bloco de Esquerda. O Bloco de Esquerda tem um património de intervenção muito forte em Aveiro e o meu percurso, de certa forma, é um espelho dessa representação que o Bloco de Esquerda tem conseguido nos últimos anos. Na assembleia de freguesia foi um mandato que correu muito bem, marcado por muitas propostas, nós éramos de longe o partido mais propositivo. Depois, na assembleia municipal, o trabalho de escrutínio da câmara também foi muito forte. Aliás, o candidato da Aliança com Aveiro até chegou a apelidar-me o líder da oposição. Temos orgulho de ser a maior pedra no sapato da maioria PSD/CDS.

Não sente, porém, que é frustrante proporem muita coisa mas nada ser aceite?
Nós tentamos focar-nos naquilo que são os assuntos importantes e somos de longe o partido mais propositivo na assembleia municipal. Olhamos para a assembleia municipal não como um conjunto de pseudo-senadores. Nós vamos lá para representar interesses específicos, nomeadamente os interesses de quem não consegue encontrar uma casa a um preço que consiga pagar, quem não tem soluções de transportes públicos… É esse trabalho de representação que nós fazemos.

Mas não é frustrante para vo­cês como partido verem as vossas propostas caírem no vazio?
Não sei, não utilizaria esses termos. Nós achamos que as nossas propostas seriam positivas. Achamos que temos a razão do nosso lado - na habitação, nos transportes…

Como se deu a sua escolha pa­ra cabeça de lista à câmara?
Nós iniciámos esta fase do trabalho autárquico com a eleição da concelhia, há cerca de um ano e meio. Na moção que saiu vitoriosa tínhamos um plano muito concreto que era encabeçar um processo de diálogo com outras forças à esquerda que pudesse acabar com uma coisa nova em Aveiro, uma candidatura diferente das anteriores. O nosso objetivo era arranjar um independente a encabeçar essa candidatura. Tivemos conversas com o PCP, com o Livre e com o PAN, mas não foi possível chegar a um consenso. E, portanto, o Bloco teve que apresentar um candidato. A nossa primeira intenção era fazer uma plataforma de diálogo com a esquerda e com forças progressistas e e­cologistas, mas também estávamos preparados para ir sozinhos. E tendo em conta a experiência que tenho dos órgãos municipais foi a escolha natural.

O PS não entrou nessas conversações. Porquê?
Traçámos uma linha vermelha para essas negociações: não iríamos fazer diálogo, pelo menos neste quadro de uma plataforma autárquica alargada, com partidos que, no passado, ajudaram a colocar Aveiro na situação lastimável em que se encontra na habitação. O PS ajudou Ribau Esteves a alienar terrenos públicos onde poderiam ter sido erguidas casas a custos controlados. E tendo em conta a primazia que a habitação tem no debate político e na vida das pessoas, nós tínhamos que traçar essa linha vermelha. Portanto, o PS estava excluído à partida. Mas também o PS deixou claro que não estaria interessado em coligações. Foi uma exclusão mútua.

O que falhou para a coligação à esquerda não avançar?
Não sabemos ao certo. O PCP não se demonstrou interessado logo à partida, e foi bastante claro em relação a esse assunto. O Livre e o PAN inicialmente foram mais abertos a uma possível plataforma de entendimento, mas, à medida que o tempo ia avançando, também fomos notando bastantes reticências e uma certa falta de lealdade política em relação às negociações e ao diálogo. Esses partidos escolheram a pequenez a poder fazer algo de inédito em Aveiro. Trocaram a oportunidade histórica de fazer algo novo à esquerda. Mas estamos confiantes que vamos conseguir transportar a nossa mensagem aos munícipes e que isso vai ser recompensado.

O esvaziamento eleitoral do BE a nível nacional pode ter reflexos locais?
Seria de uma soberba gigantesca se dissesse que não. É um desafio que a candidatura do Bloco vai ter que enfrentar. No entanto, há sinais de que vamos conseguir reverter essa tendência. Temos uma candidatura bastante forte, com centenas de candidatos - vamos a nove juntas, só não conseguimos ir a São Jacinto. Há uma renovação bastante grande, o que não quer dizer que históricos do partido também não estejam envolvidos. E temos vindo a sentir uma grande adesão às ideias do Bloco por par­te da sociedade e também por parte dos outros partidos. É agora unânime que a habitação é um problema - o Bloco era o único partido que falava e que propunha uma intervenção mais forte na habitação, agora é praticamente unânime, da esquerda à direita, que é preciso fazer mais pela habitação e que a câmara tem um papel importante nessa área. Também na questão da taxa turística, em que parece haver alguma unanimidade nas várias candidaturas.

Atendendo ao que acabou de dizer, o que seria um bom resultado para o Bloco?
Seria eleger para a câmara - seria um excelente resultado. Nun­ca aconteceu, mas estivemos várias vezes perto. Se conseguíssemos romper essa barreira seria um excelente resultado. Temos noção que será difícil, mas estamos aqui para fazer essa luta. Um bom resultado seria ainda mantermos a nossa representação na assembleia municipal, onde temos dois eleitos, e queremos também manter e ampliar a nossa representação nas freguesias.

 

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Setembro 8, 2025 . 09:00

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