
«Há barracas em Aveiro, as pessoas é que não olham»
Alberto Souto foi presidente da Câmara de Aveiro entre 1998 e 2005. Vinte anos depois, volta à corrida. O socialista, de 66 anos, defende que as «grandes transformações» operadas no município aconteceram nos seus mandatos; elogia Ribau Esteves pela recuperação financeira, mas critica-o por quase tudo o resto; e diz que confia na vitória e na governabilidade.
Diário de Aveiro: Sempre deu a entender que não voltaria a concorrer à câmara. Afinal é candidato. Porquê?
Alberto Souto: Durante um período da minha vida julguei que a atividade camarária estaria excluída, mas, no ano passado, decidi arrumar as minhas ideias para ajudar o candidato do PS e foi nesse contexto que escrevi o livro com as 101 ideias para Aveiro. Quando acabei de o fazer senti que o bichinho estava lá e quando me fizeram o desafio para assumir esta candidatura concluímos todos que era a melhor solução.
O seu projeto autárquico é para quantos mandatos?
É um dia de cada vez. Estamos concentrados nesta candidatura e depois o futuro dirá.
Ouvindo as pessoas, percebe-se que a imagem de gastador e despesista está muito colada a si. Como vai romper com esse anátema?
Durante 20 anos não estive na vida política a defender-me e essa imagem foi sendo alimentada pelos meus detratores. É verdade que houve um desequilíbrio financeiro, mas toda a gente sabe que esse desequilíbrio foi causado pela construção do novo estádio. Há quem esteja muito preocupado em buscar argumentos de há 20 anos, porque não tem argumentos para o presente e o futuro. Tenho muito orgulho no passado, porque nós nesse passado construímos muito futuro. O desequilíbrio de tesouraria foi causado pela construção do estádio. E quem é que aprovou o estádio? Eu vou lembrá-lo todos os dias: quem aprovou o estádio foi uma maioria do PSD e do CDS, o PS estava em minoria. Foi aprovado por unanimidade, foi uma grande vitória para Aveiro. E, portanto, sem enjeitar responsabilidades, não aceito que o PSD e o CDS enjeitem as suas. A partir de 2005 é que as coisas começaram a correr muito mal. Eu candidatei-
-me ao terceiro mandato e teria resolvido a situação, mas a política é como é. Desafio os que me acusam de ser despesista e megalómano a dizer qual é o investimento que não teriam feito naquela época. O saneamento em todo o concelho? O parque de feiras? O lago da Fonte Nova? Não recuperavam os canais e o Teatro Aveirense? E por aí fora. Se eles não tivessem sido feitos, Aveiro seria uma vilória sem saneamento nas suas freguesias, sem equipamentos adequados, com o espaço público desinteressante e degradado… Tenho muito orgulho e espero que os aveirenses tenham memória desses investimentos de que estamos todos a usufruir.
Decorreram cinco mandatos desde que saiu da câmara. Que Aveiro é a Aveiro de hoje, de 2025, em comparação com a Aveiro de 2005, quando saiu?
Sem falsas modéstias, acho que as grandes transformações que se fizeram em Aveiro foram no meu período. É verdade que, nos oito anos que se sucederam à minha saída, houve fatores que tornaram a vida do município muito difícil. Não imputo todas as culpas ao dr. Élio Maia, que também as teve, mas a crise financeira de 2008 provocou dificuldades graves. Todos os investimentos pararam. Foi um período muito difícil e o dr. Élio ainda o agudizou com decisões erradas. O eng. Ribau Esteves teve mérito e sorte. É preciso trabalhar bem e é preciso estar no sítio certo à hora certa. Em 2013, quando entrou, foi aprovada uma nova lei das finanças locais e essa nova lei e o recurso ao Fundo de Apoio Municipal permitiram que, em dois/três anos, ele reequilibrasse as contas. Parabéns, merece esse crédito. Mas tudo era diferente e, portanto, não vale a pena comparar o que não é comparável. Todos demos o nosso melhor, em circunstâncias diferentes.
Mas o que vê de diferente no município, para melhor ou pior?
Deixe-me puxar outra vez pelos galões: Aveiro está uma cidade muito mais turística. Não havia turismo quando eu fui presidente. E por que é que há turismo agora? Porque eu fiz um trabalho essencial: reconstruímos os muros dos canais, retirámos os esgotos dos canais e estabilizámos o leito de água. E, portanto, se há turismo náutico em Aveiro a mim o devem. O que é que eu encontrei mais agora: um excelente caminho ao nível das IPSS. Temos, quer ao nível das creches, quer ao nível dos lares, um progresso muito bom. Aveiro pode orgulhar-se de ter um parque social do melhor que há no país e ombreando com o que de melhor se faz na Europa. Foram investimentos do Estado, muito bem aplicados. Claro que há dois ou três problemas para resolver e um grande caminho a percorrer - precisamos de mais lares e mais creches, porque queremos ter lista de espera zero. Por outro lado, a universidade cresceu fantasticamente e não podemos esquecer que um quarto da população aveirense, direta ou indiretamente, trabalha na universidade ou depende da universidade. Por outro lado, na área desportiva, Aveiro passou dos campos relvados para os campos sintéticos. Mas com muito trabalho ainda para fazer nesta área.
Tirando a parte da recuperação financeira, não lhe é fácil fazer um elogio a Ribau Esteves…
Os historiadores um dia farão o balanço de quais são as marcas destes mandatos, mas diria que há duas marcas que são perenes e ambas muito más: o Rossio e a avenida. A avenida foi totalmente descaracterizada e está a criar um problema de trânsito que sentimos todos os dias e, no Rossio, além de estar descaracterizado, criou-se um espaço inóspito, inutilizável no verão por causa do sol, inutilizável no inverno por causa da chuva e do vento. Uma estrutura que ainda por cima teve uma grande derrapagem financeira. Foi um desastre o que se fez no Rossio e na avenida.
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