Última Hora
Pub

Correr 100 maratonas em 100 dias por um mundo melhor

Seis maratonas e meia estão feitas. Faltam noventa e três e meia. Pedro Queirós está a correr entre Lisboa e Auschwitz para construir uma escola no Nepal e promover a paz entre Israel e a Palestina. Chegou ontem a Aveiro. E hoje partiu de Estarreja rumo ao Porto

Uns chamam-lhe «louco». Outros apelidam-no de «humanitarista». Nós dizemos/escrevemos que é um homem bom, inspirador, daqueles que rareiam nos dias de hoje e que dá mesmo vontade de estar à conversa horas a fio. A nossa reportagem conheceu-o, ao início da tarde de ontem, aquando da sua chegada a Aveiro. Carregava uma mochila e envergava a bandeira nacional, com a qual há dois anos subiu o Monte Evereste.
Depois de ter apanhado uma «molha bíblica» - entenda-se uma valente chuvada - e de ter feito os últimos 12 quilómetros literalmente na companhia do Diário de Aveiro (DA), Pedro Queirós, de 43 anos, chegou à “Veneza Portuguesa”. Estava «desfeito fisicamente», «muito cansado». Sentia «os músculos quase a claudicar». Mas nada que não estivesse à espera, «porque, admitiu, ponho sempre as minhas aventuras e os meus objetivos num patamar de impossibilidade». E também nada que um banho, uma massagem, que tinha marcado previamente, «uma boa alimentação», umas horas de descanso não resolvessem. Já para não falar «no apoio de pessoas incríveis como vocês, do Diário de Aveiro, da equipa aqui do hotel [Moliceiro] onde vou pernoitar, e de tantas outras que tenho encontrado ao longo da vida», que são um “verdadeiro bálsamo” para o corpo, mas, sobretudo, para a alma - leia-se energia anímica.
Tinha acabado de completar seis maratonas e meia, ao todo. Faltam noventa e três e meia até ao final deste seu «propósito humanitário», o maior de todos até à data.

Cidade de Aveiro na rota do Run For Peace
Aveiro integra a rota que pretende seguir - a correr, imagine-se - até Auschwitz (Polónia), perfazendo até 3 de agosto um total de 4.200 quilómetros. Sob o lema “Construiremos pontes e não muros” e, como confidenciou, «movido por uma dose de loucura saudável», o sexto português a atingir o cume do Evereste quer agora pisar o lugar onde, como o próprio diz, «a humanidade bateu no fundo». No antigo campo de concentração de Auschwitz, um dos maiores símbolos do Holocausto, pretende homenagear todos aqueles que ali sofreram e perderam a vida. Ali quer prestar tributo a todas as vítimas da guerra e do ódio, independentemente do país onde nasceram ou o Deus em que acreditam, lembrando a importância do envolvimento de cada um de nós na construção de um mun­do melhor.
Mas o objetivo desta sua «oitava aventura humanitária», designada Run For Peace, vai mais além. «Run For Peace é um manifesto pela paz que pretende despertar consciências», como fez questão de sublinhar, por mais do que uma vez.
Pedro Queirós quer fazer o equivalente a 100 maratonas em 100 dias, para angariar 100 mil euros: 50 mil euros para construir uma escola de raiz no Nepal, juntamente com o projeto Dreams of Kathmandu; e os outros 50 mil euros para apoiar comunidades, escolas e associações que defendem a paz, a igualdade e a liberdade entre Israel e a Palestina, como a Hand in Hand e a Combatants for Peace. Até esta última quar­ta-feira já tinha conseguido «mais de oito mil euros», conforme adiantou em primeira mão ao DA.
Desde o passado dia 25, quan­do começou este desafio na Praça do Comércio em Lisboa, de onde é natural, tem vindo a «despertar consciências». O manifesto Run For Peace foi criado para consciencializar a humanidade contra a guerra, desigualdade, o racismo, a xenofobia e a violência, o que, no fundo, não é mais do que este maratonista, que tem tido a possibilidade de treinar com atletas olímpicos, de várias partes do globo, tem vindo a fazer desde há uma década.
Há dez anos, precisamente no dia 25 de abril, “viu a vida por um fio”, quando Kathmandu, a capital do Nepal, onde se encontrava, foi atingida por um violento terramoto de 7.8 na Escala de Richter, soterrando milhares de pessoas juntamente com os seus sonhos. E a partir de então nunca mais foi o mesmo.
Dos escombros e do pó da terra, que não lhe saem da memória, nasceram um “homem novo” e uma missão humanitária que «começou com ir a uma loja comprar arroz e bananas para distribuir por aquelas pessoas que estavam ali» e dura até hoje. Pedro Queirós arregaçou as mangas e, acompanhado por centenas de doadores e voluntários, ajudou a alimentar milhares de pessoas. Também colaborou na construção de casas e ajudou na fundação do Campo Esperança, um novo lar para vítimas da tragédia.
Nos últimos anos, dedicou-se de coração às crianças do Nepal e fundou o projeto “Dreams of Kathmandu”, para a viabilidade do qual criou o conceito de “aventuras humanitárias»: Tra­ta-se de «uma fórmula mágica que consiste em superar grandes obstáculos, ao mesmo tem­po que recolho fundos junto da minha comunidade mais próxima». Entre outras “aventuras humanitárias”, Pedro Queirós alcançou o topo do mundo, atravessou o Japão a correr, fez uma caminhada de 1.200 quilómetros pela Índia e está, neste momento, a correr rumo à Polónia. Hoje, às 6 horas, parte de Estarreja (posto de abastecimento de combustível Repsol) em direção ao Porto.
Na sua opinião, o diálogo e a educação são o único ca­minho para a paz. Com o Run for Peace quer gerar um movimento global com milhares de pessoas a correr no mundo inteiro, como vem demonstrando nas redes sociais (Facebook Pedro Queirós e Instagram @pedro_queiros_projectx) ou no “site” www.pedroqueiros.com).

Em setembro concretizará «um sonho de infância»
Formado em Gestão de Empresas e em Agronomia, o destino, no qual acredita «piamente», levou-o «a outros caminhos». E tanto é assim que, ainda este ano, após concluir mais este desafio, vai agarrar outro. «Vou fazer um Master’s em Desporto». «Vou estudar para a Suíça e vou concretizar um sonho de infância, porque tudo o que tenha a ver com desporto sempre foi a minha gran­de paixão. Agora em setembro, com 43 anos, vou voltar à escola, veja lá», confidenciou ao nosso jornal este lisboeta cuja família é originária da Beira Alta, da aldeia de São Pedro de Rio Seco.
Ainda a propósito de paixões, a «grande paixão» da sua vida é Ghazal [que significa “poema de amor” na Língua Persa], uma iraniana que conheceu numa viagem de barco, no Vietname, com quem está casado há dez anos e tem um filho (Vicente). Os três vivem atualmente no Teerão.

Maio 1, 2025 . 07:45

Partilhe este artigo:

Junte-se à conversa
0

Espere! Antes de ir, junte-se à nossa newsletter.

Comentários

Fundador: Adriano Lucas (1883-1950)
Diretor "In Memoriam": Adriano Lucas (1925-2011)
Diretor: Adriano Callé Lucas
94 anos de história
bubblecrossmenuarrow-right