
Produtores de ovos-moles estão a suportar aumento do preço da matéria-prima
Na cidade dos ovos-moles, a atual conjuntura é preocupante para os produtores e vendedores deste doce tradicional de Aveiro devido à acentuada subida dos preços da principal matéria-prima, o ovo. Mas, apesar de não se refletir nos preços do consumidor final, isso pode vir a mudar, se não for interrompida esta escalada.
O preço dos ovos, ou melhor, o seu aumento, é um assunto muito mediatizado em Portugal e noutros países - principalmente nos Estados Unidos da América (EUA) -, não apenas devido à dimensão da subida, mas também ao consumo generalizado em Portugal, e por constituir um alimento de relevante valor nutricional, particularmente rico em proteínas.
Quanto aos EUA, onde a oferta reduziu drasticamente devido ao abate de 60 milhões de aves, por causa da gripe das aves, um surto que atingiu outros países, e onde a procura aumentou, esta é uma das razões para a subida de preços apontada pelo produtores de ovos, assim como o acréscimo de consumo devido à aproximação da Páscoa e aumento dos fatores de produção.
Do que se trata neste artigo é do uso dos ovos na confeção de doces, sendo que é mais elevado nas receitas dos doces conventuais, mais do que na restante doçaria. A partir daqui chegamos a Aveiro, a cidade “capital” dos ovos-moles, sendo também muito significativa a sua utilização noutras especialidades tradicionais.
As gemas
Antes de chegarem às montras e prateleiras de pastelarias e lojas especializadas neste doce conventual, as gemas de ovo, o elemento principal deste doce de Aveiro, iniciam um processo na confeção artesanal. É nestas empresas que se vive este problema do aumento do preço dos ovos. Na Maria da Apresentação da Cruz, Herds., onde são usados mais de mil ovos por dia, em média, «aguenta-se» sem aumentar os preços, com a «esperança» que os preços dos ovos desçam, ou que o aumento seja sustido. Nos últimos dois anos, regista um aumento de cerca de 25 por cento, recordando-se que, se uma dúzia custava 90 cêntimos, passou a custar 2, 30 euros, mais IVA. Ao mesmo tempo, as vendas desceram «bastante», o que adensa o problema. Os preços da venda de ovos-moles não foram alterados, mas se a situação se mantiver, isso pode mudar, concretamente a partir do próximo mês de maio.
Na Fabridoce, o administrador Rui Almeida diz que «o impacto [da subida do preços dos ovos] é grande na margem do produto», mas, para já, não teve reflexos no consumidor. No entanto, o que irá acontecer nos próximas semanas será determinante. «Se o preço não estabilizar, passado o pico, teremos de subir os preços. Até agora, a indústria tem «absorvido grande parte do aumento», disse. Esta empresa adquire apenas as gemas e, por isso, «é muito penalizada», sendo que o preço quase que triplicou desde 2023.
Rui Almeida também observa que o aumento do preços dos ovos «não é novo: normalmente, sobe na Páscoa e Natal, mas agora é um aumento em cima de outros aumentos». Feitas as contas «a margem é bastante baixa» e, nesta fase, a subida de preços «não se consegue repercutir nos preços de venda».
Ovos podem chegar à tutela
José Francisco Silva, que preside à Associação dos Produtores de Ovos Moles de Aveiro (APOMA), considera que ainda é possível manter um «preço agradável», que o consumidor final acha que «é justo».
Sobre o aumento do custo dos ovos e as preocupações dos produtores de ovos-moles, aquele responsável adianta que será melhor esperar pelo fim desta época da Páscoa. Passado este período, se o problema se mantiver, o assunto «será levado à tutela».
Para já «não se pensa em mexer nos preços e, se o fizéssemos, isso seria perigoso», diz, compreendendo a situação difícil vivida pelos produtores. «Normalmente, o preço dos ovos sobe na Páscoa e no Natal e depois desce. Mas agora tem estado a subir permanentemente e isso tem muito impacto». Espera, por isso, um «esforço para que a democratização do acesso aos ovos-moles seja respeitado e as políticas sejam orientadas nesse sentido».










