Floresta: um desafio coletivo e uma esperança renovada
Portugal enfrenta hoje três grandes fatores de risco estrutural que fragilizam o território e comprometem o seu desenvolvimento: a falta de ordenamento do território capaz de criar paisagens diversificadas, compartimentadas e resilientes; o baixo nível de gestão ativa, consequência da baixa rentabilidade das atividades rurais; e a estrutura fundiária fragmentada em minúsculas parcelas sem escala, que dificulta uma gestão eficiente e sustentável pouco compatível com uma gestão profissional e eficiente.
Perante este cenário, torna-se essencial que, nos próximos anos, o país reconheça de forma clara que a floresta e o território rural são pilares da segurança, da economia e da coesão social. Para isso, é necessário um quadro de políticas públicas estável, acompanhado de um financiamento próprio e previsível, que permita planeamento e ação no terreno a médio/longo prazo.
Medidas como compartimentar o território, promover modelos agregados de gestão e remunerar os serviços de ecossistema podem criar condições reais para uma floresta mais segura e produtiva. Continuar a exigir que os proprietários assumam estas responsabilidades sem reconhecimento nem retorno económico não é viável a longo prazo.
E a boa notícia é que já existem sinais encorajadores no terreno em diversas regiões do país. Na região de Aveiro, a Associação Florestal do Baixo Vouga tem demonstrado que mesmo em territórios fragmentados, é possível avançar com soluções colaborativas - através das Áreas Florestais Agrupadas. Nestes modelos, cada proprietário participa proporcionalmente à sua área e partilha investimentos e benefícios. É uma lógica simples, mas transformadora: aumenta a escala útil, reduz custos, permite mecanização e abre portas a novos mercados, como o do carbono.
Até ao final de 2025, estarão no terreno 11 projetos, abrangendo 180 hectares e envolvendo cerca de 150 proprietários. Uma prova concreta de que, com mediação técnica, apoio jurídico e confiança, a cooperação acontece - mesmo num país marcado pela cultura da pequena propriedade.
Para que estes modelos se multipliquem, é fundamental reforçar o papel das organizações de produtores florestais. São estas entidades que acompanham os proprietários, traduzem a complexidade técnica e criam as condições de confiança necessárias para qualquer transformação.
É igualmente importante aproximar as novas gerações do setor florestal. A floresta é um património vivo, que sustenta equilíbrios ambientais, económicos e sociais. Cuidá-lo e transmiti-
-lo em melhores condições às gerações futuras deve ser um compromisso coletivo, que passa por abrir espaço a mais conhecimento, participação e envolvimento dos jovens.
A entrada de um novo ano é um momento propício para renovarmos prioridades. Não olhemos para o território apenas quando há tragédias, mas como um ativo estratégico, digno de investimento e respeito. A floresta portuguesa deve ser mais valorizada, mais gerida e mais protegida. O caminho existe e importa, desde agora, consolidá-lo com visão, continuidade e colaboração.
A floresta é de cada proprietário, mas o seu futuro é de todos nós. E cuidar desse futuro é uma responsabilidade partilhada, na qual os nossos governos, enquanto legislador, têm uma responsabilidade acrescida.
Juntos, a cuidar do futuro.






