
Candidatos a Aveiro mostram diferenças
Num debate sem a candidata do PAN, Ana Rita Moreira, que invocou motivos de saúde para explicar a ausência, os cabeças-de-lista à presidência da Câmara de Aveiro voltaram a expor as suas propostas para a governação municipal. A iniciativa foi do Diário de Aveiro e do Canal Central (Escola Profissional de Aveiro), que com o encontro de quarta-feira à noite fecharam o ciclo de cinco debates na região.
Na intervenção inicial, de tema livre, Bruno Fonseca, do Livre, que se estreia na corrida à Câmara, defendeu uma «política local mais próxima, transparente e participativa» e atenta aos anseios da população. «Chegou o momento de dar voz ao que os aveirenses nos dizem há muito tempo e de dar voz a quem não se revê na política do centro», afirmou. É preciso, frisou, «mudar prioridades», dando atenção a setores como a habitação, mobilidade, cultura e inovação.
Para Diogo Machado, do Chega, «é chegada a hora de avançar para uma verdadeira candidatura por Aveiro» centrada na coesão territorial, habitação ou mobilidade. »Queremos devolver a ambição e a democracia a Aveiro, que tem andado tão arredada do debate político», disse.
Pela Iniciativa Liberal, Miguel Gomes fez a defesa da «sociedade civil», apostando numa governação em que empresas, associações ou clubes tenham papel no «objetivo comum» de aumentar a qualidade de vida no município.
Luís Souto, número um da Aliança com Aveiro (PSD/CDS/PPM), realçou o legado produzido pela coligação nos últimos mandatos. «As pessoas sabem os resultados que foram conseguidos nos ciclos anteriores da Aliança”, disse. Assumiu, porém, que à «continuidade» quer acrescentar «elementos de inovação» em áreas como habitação, mobilidade e ambiente.
O projeto político da CDU, notou Isabel Tavares, assenta num «compromisso com os aveirenses» em setores como habitação, transportes, ambiente e cultura. O objetivo, assumiu, é levar as «reais necessidades da população» para os órgãos autárquicos locais.
Paulo Alves descreveu a candidatura do Nós, Cidadãos! como «progressista, ecológica e inovadora». O mar - «vivemos sempre de costas voltadas para o mar», disse -, o projeto Geração Mais, cruzando seniores com estudantes universitários, e a diáspora, que visa transformar os aveirenses emigrados em «embaixadores informais» de Aveiro, são os «três pilares» do projeto autárquico da candidatura.
O Bloco de Esquerda (BE), por sua vez, assume-se como «alternativa ao centrão». A «crise profunda de desigualdades» provocada por um «modelo económico ligado à especulação imobiliária» tem como «responsáveis diretos o centrão», criticou João Moniz. Esta política tem tido expressão em Aveiro pela mão da Aliança com Aveiro mas, como no caso da «venda de património público para a construção de habitação de luxo», «quase sempre com o apoio do PS».
Alberto Souto, finalmente, líder do município entre 1998 e 2005 pelo PS, lançou fortes críticas ao atual ciclo político dirigido por Ribau Esteves. «Olha-se para Aveiro e não se vê habitação pública nova, porque não foi feita nenhuma e faz muita falta, e também não se vê nenhuma zona verde nova», afirmou. Essas são duas das «muitas» razões para a candidatura, resumiu.
Num debate moderado por João Luís Campos, diretor-adjunto do Diário de Aveiro, a saúde foi um dos principais temas em discussão. Para Miguel Gomes, a expansão do hospital é importante mas «os aveirenses precisam de uma solução para já». Propõe, por isso, a criação de um seguro de saúde municipal para todos os cidadãos, pago pela Câmara, que faculte acesso à rede e a aos serviços de saúde já existentes no território.
«Os que dizem que não podemos esperar nem mais um minuto por um hospital novo são os mesmo que nos últimos 12 anos, e mais para trás, não fizeram nada», acusou Diogo Machado, temendo que o projeto de ampliação da atual unidade de saúde seja «uma quimera» sem concretização. No imediato, defende o prolongamento até às 22 horas dos horários dos centros de saúde nas freguesias mais afastadas da cidade e transporte municipal para consultas de especialidades no hospital para os utentes dessas povoações.
Para João Moniz, o processo referente ao hospital ilustra a incapacidade política do atual poder autárquico e regional. «Um dos grandes falhanços da direita é a falta de liderança política e de peso da região», assinalou, notando que o atual hospital «está esgotado e não dá resposta» à comunidade. É também preciso, adicionou, adotar «um novo modelo de urbanismo» dado que «um dos grandes males de saúde pública é a poluição causada pelo automóvel».
Isabel Tavares defende que, em paralelo com o processo do hospital, é preciso garantir uma «resposta imediata» às populações capacitando o atual serviço de meios e pessoal suficientes. Assegurar uma «saúde de proximidade para retirar pressão aos hospitais» é outra prioridade, comentou a comunista.
«Os políticos que passaram por Aveiro são de pouca ambição» e têm uma visão «míope» do problema, avaliou Paulo Alves, defendendo mais do que a ampliação do atual hospital. O candidato prefere a construção de um novo complexo hospitalar junto à A17, A29 e A25, disse.
Luís Souto insurgiu-se contra esta ideia. «Há intervenientes que querem voltar a discutir a localização do hospital mas não se pode perder mais tempo», exortou. Acusou ainda outros candidatos de «enganarem os aveirenses» ao proporem medidas que fogem à alçada municipal, como o alargamento dos horários dos cuidados primários. «Não podemos fingir que somos o ministro da saúde», avisou. Elogiou ainda a «revolução silenciosa» operada pela Aliança com Aveiro na rede de centros de saúde e prometeu a criação da Carta Municipal da Saúde, descrito como um «documento estratégico» para o setor.
Alberto Souto considerou que «Aveiro averbou uma enorme derrota estratégica renunciando a receber um hospital para todo o Baixo Vouga e conformando-se com mais um bloco para o ambulatório». «Isto deve-se a quem esteve no poder estes anos todos», acusou. O socialista entende que a zona de confluência das auto-estradas seria «o local ideal» para um novo hospital caso Aveiro tivesse dado mostras de «capacidade reivindicativa». Garantiu, porém, que não será por si que o projeto de ampliação do atual hospital será atrasado. «Aveiro não perderá um único dia a partir do dia em que haja projeto de execução», disse.
Na opinião de Bruno Fonseca, «falta investimento na saúde em Aveiro». «Iremos pressionar para a melhoria do hospital e para que a saúde chegue mesmo às pessoas», salientou o cabeça-de-lista do Livre.
Na mobilidade ficaram patentes pontos de contacto e de discórdia. Alberto Souto pede um «novo impulso» à mobilidade ciclável, o reforço dos transportes públicos e melhores condições para «andar em pé em segurança», nomeadamente com a renovação de passeios, como contributos para uma «nova cultura» de mobilidade. Para o socialista, Aveiro carece ainda de soluções para atuais constrangimentos viários, de que a Avenida Dr. Lourenço Peixinho é um exemplo. No futuro, a esta via será retirado o tráfego de atravessamento, prometeu.
O Plano de Mobilidade 360 é a proposta da Iniciativa Liberal com ações na mobilidade coletiva, mobilidade suave, mobilidade partilhada, transporte individual e ferrovia. Transportes públicos fiáveis são uma prioridade. «Não faz sentido que de Sarrazola a Aveiro se demore 40 minutos», afirmou Miguel Gomes, para quem a requalificação da Avenida Europa, encarada como «espinha dorsal» da mobilidade no município, é também uma intervenção central. O partido quer também alargar a Linha do Vouga até Ílhavo.
«A mobilidade não é democrática em Aveiro», advertiu Bruno Fonseca, que reclama «alternativas ao carro» como a «qualificação efetiva» da Linha do Vouga após «décadas a andar para trás». A abertura a passageiros do ramal ferroviário para o Porto de Aveiro é outra medida sugerida pelo Livre.
João Moniz reconheceu «bastante unanimidade» no setor da mobilidade. Todos defendem «uma rede de ciclovias expandida e racional, passeios mais seguros, transportes públicos que funcionem», disse. Nos transportes públicos, existe um «problema brutal de confiança em relação ao serviço», avisou. O BE apresenta, porém, uma proposta diferenciadora: a remunicipalização dos serviços. «Temos de acabar com a concessão», apelou. Propôs igualmente uma política intermunicipal. «Sem isso vamos ter medidas peça a peça e remendos».
Isabel Tavares alinha com a «municipalização da rede de transportes rodoviários». «É a Câmara que sabe como gerir a rede em função das necessidades», disse, censurando a «deficiente resposta» dos serviços. «Temos de travar esta ideia de que o município paga e quem lucra são os privados», notou. Defende ainda o fim das portagens à entrada da cidade e a valorização da Linha do Vouga.
Para Diogo Machado, é necessário «dar resposta às necessidades imediatas», o que passa por eliminar as portagens nas antigas SCUT. Isso ainda não aconteceu pela «total irrelevância e falta de peso político de quem governou Aveiro nos últimos 12 anos». Uma promessa é o «mapeamento integral de toda a rede viária de passeios e ciclovias», seguido de um programa para a sua recuperação. O candidato do Chega denunciou, por outro lado, a «falta de relacionamento institucional» do município com a universidade, com reflexos na rede intermunicipal de transportes. «A UA não foi tida nem achada» no processo, acusou.
Luís Souto defende a criação de parques periféricos ligados ao centro por um «sistema de vai-vem regular», diminuindo assim a pressão sobre o estacionamento na cidade. Embora propondo um «plano de urgência para reparar passeios», fez a defesa do trabalho dos últimos executivos. «Convido o Diogo e o Alberto, uma vez que agora andam sempre de mãos dadas, a ir os dois a Cacia e à antiga EN109 para verem os passeios que foram feitos», ironizou. «Aumentar as zonas pedonais no centro da cidade» e «criar corredores BUS onde eles são necessários» foram outras medidas apresentadas.
Paulo Alves quer uma lancha fluvial rápida a fazer ligações para São Jacinto, com benefícios para trabalhadores e estudantes e para o turismo. Novos parques de estacionamento, incluindo um subterrâneo junto à estação, e estender a Linha do Vouga são outras medidas propostas. Ao invés, devolver a gestão direta dos transportes à Câmara é uma ideia rejeitada. «Querem a municipalização dos transportes para ter mão nos funcionários públicos», apontou.










