A casa e o seu dono
Aveiro tem assistido a uma troca de ideias superficiais e ao assumir de posições, demasiado vincadas para o conhecimento que se tem, relativamente à casa sita na confrontação da Avenida Artur Ravara com a Avenida Calouste Gulbenkian.
Casa conhecida como “Casa da Cerciav”. Numa perspetiva de ajudar a compreender do que se fala, apresento a história por detrás da casa e dos fins para os quais foi adquirida.
Factos
Os terrenos onde está o conservatório, a casa e os lotes de terreno adjacentes (onde foi colocada a ponte de ferro pouco utilizada) foram adquiridos pela Fundação Calouste Gulbenkian (FCG), mediante proposta do fundador do, à época, Conservatório Regional de Aveiro (CRA), Dr. Orlando de Oliveira.
A aquisição dos terrenos aconteceu em fevereiro e em julho de 1965 (cf. Memória Descritiva do Projeto de Arquitetura do Edifício).
Primeiro foi adquirido o lote onde se encontra o atual edifício sede e a seguir foi adquirida a casa e os referidos lotes adjacentes.
A primeira perspetiva era a ampliação da escola e a segunda era que não existisse qualquer edifício que retirasse a visibilidade ao belo edifício do conservatório (cf. Correspondência trocada entre o CRA e a FCG).
A fundação adquiriu o quarteirão, inteiro, para que o conservatório desenvolvesse a sua atividade, na época e numa brilhante visão de futuro.
O início da atividade do CRA, no novo edifício, aconteceu a 8 de outubro de 1969, data do seu 9.º aniversário.
Naquela época e, porque não estava, ainda, perspetivada a ampliação da escola, a casa teve a função de residência para professores e os terrenos para espaço de recreio dos alunos que o frequentavam.
Não obstante a utilização da casa como residência de professores ter sido reduzida, não foi demolida conforme previsto inicialmente. Um bem maior surgiu, apoiar uma importante instituição recentemente criada na cidade, a terceira a nível nacional, a Cerciav.
Em novembro 1975, a casa foi cedida pela FCG para que a Cerciav iniciasse a sua atividade.
O edifício não foi propriedade da Cerciav e nem esta o reclama como seu.
Em outubro de 1985, no 25.º aniversário do CRA, a fundação doou à edilidade aveirense todo o edificado, terrenos e equipamentos.
Na doação está, naturalmente, a casa, com os seus anexos e logradouro. Nos termos da doação há referência, explicita, aos fins para os quais se destina o património doado, especificamente para o “ensino da música e afins” (cf. Ata da doação).
Propósito:
Esclarecida a questão relativa ao dono da casa, é urgente clarificar mais uma ideia pouco ou nada fundamentada sobre a utilização que se pretende dar ao lote onde se encontra a casa.
Ao contrário do que tem sido veiculado, a ampliação do conservatório não passa pela criação de uma sala para as aulas de dança.
O projeto prevê a construção de cinco estúdios de dança, respetivas régies e balneários, instalações sanitárias, dez salas de estudo para alunos, três salas de percussão e uma zona de acesso a pessoas com mobilidade reduzida.
A ampliação aumentará em 30% a capacidade de acolhimento de novos alunos.
O projeto de ampliação tem em consideração os fundamentos para a aquisição da tão falada casa.
A nova construção não retirará a visibilidade para o magnifico edifício existente e em funcionamento.
Pelo contrário, dará continuidade ao edifício existente.
O projeto foi elaborado em função das necessidades e com conhecimento das ideias dos fundadores e diretores e da benemérita FCG.
As ideias, os pressupostos e a memória dos fundadores e doadores deverão ser honrados?
Aveiro merece um debate cuidado e informado. Poderia ser uma referência a nível social, na educação, na cultura, na economia e na saúde. Infelizmente, salvo raríssimas exceções, que as há, não o estamos a ver.







