
«Terramoto» Chega pôs o sistema partidário em “estado de alerta”
«O edifício partidário está fragilizado», vítima do «terramoto» verificado nas legislativas do passado domingo. «Ainda não ruiu, mas o tempo escasseia para o reparar», sublinhou, ontem, Carlos Jalali, professor associado do Departamento de Ciências Sociais e Políticas e do Território (DCSPT), em sessão inserida no programa da Semana Aberta do DCSPT, que analisou os resultados das eleições.
Tinha explicado que o Chega veio abalar o “império” do «centrão» - leia-se resultados conjuntos de PSD e PS - para reclamar o estatuto de líder da oposição e possível força de governação. «Uma mudança radical no nosso sistema partidário», afirmou.
Assinalou que, contados os votos da emigração, o partido de André Ventura poderá ver-
-se com mais deputados na Assembleia da República, superando o grupo parlamentar socialista, o que poderá dar gás ao seu desejo de ser alternativa reconhecida de poder.
Certo de que o sistema se tornou «imprevisível», o académico ainda juntou à equação a mudança de líder do PS, antevendo que o substituto de Pedro Nuno Santos poderá não querer assumir a chefia para ser responsabilizado por um eventual resultado menos bom nas autárquicas que se aproximam.
Previu que podem passar «meses» até que o chamado “partido da rosa” tenha um novo secretário-geral, deixando André Ventura a proclamar a sua condição de líder da oposição à AD.
Carlos Jalali e Eduardo Anselmo Castro, também professor associado naquele departamento, ainda salientaram que, no seu conjunto, a Direita elegeu deputados que garantem os dois terços necessários para uma revisão constitucional ou para a nomeação de juízes para o Tribunal Constitucional.
Eduardo Anselmo Castro fez notar que o PS, fora da centralidade do regime, é que seria um verdadeiro «terramoto», com Carlos Jalali a pôr água na fervura, acentuando que, sendo verdade que os dois terços são conseguidos com a soma de parlamentares de AD, Chega e Iniciativa Liberal (IL), também o são com a soma AD, PS e IL. Vincou que será determinante saber se Luís Montenegro e a coligação PSD-CDS mantêm o «não» ao Chega, preferindo cooperar com o PS em situações de maior importância, ou se haverá uma mudança na política da AD, que, no ano em que esteve na governação, recusou acordo com a formação partidária de André Ventura.
O Chega reclamou, na noite eleitoral de domingo, a sua conquista do reduto do bipartidarismo, mas os dois académicos recusaram tal cenário. «Ainda não», enfatizou Eduardo Anselmo Castro. Indo ao prático da solução de Governo para o imediato, o seu colega considerou que «seria atípico» que o PS, fragilizado, optasse por chumbar o programa do próximo executivo da AD.
Carlos Jalali projetou que um grau maior de «incerteza» chegará na hora de ser votado o Orçamento do Estado.
Eduardo Anselmo Castro ainda salientou que a AD (PSD-CDS) conseguiu mais votos do que toda a Esquerda, pelo que o partido da extrema-direita não terá a opção de - não se comprometendo muito - apenas se abster para deixar em maus lençóis o executivo de Luís Montenegro. O professor disse que, na conjuntura da saída das legislativas 2025, o Chega terá de se assumir, votando «contra», caso queira fazer cair o elenco governativo.
«Pode perder votos», disse, com nota de que é provável que se mostre «mais responsável», permitindo que «o Governo se vá «aguentando».
Na sua análise aos resultados, por regiões, tinha constatado que «o Chega dá-se pior em zonas urbanas» e com eleitores «com níveis de formação superiores». Sobre a região de Aveiro, vincou que a sua parte rural é das zonas mais conservadoras do país.
Desmentiu, ainda, a noção de que o Alentejo se tenha tornado numa coutada do Chega, vincando que já não é do PCP, mas realçando que «continua a ser das regiões mais à esquerda». Apesar da subida da Direita, nomeadamente entre as pessoas que têm «conflito» com os imigrantes.
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