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A Gafanha da Nazaré «tem o direito de ser olhada de outra forma»

O presidente da junta de freguesia olha para a evolução da Gafanha da Nazaré nos últimos anos e perspetiva o desenvolvimento futuro

Carlos Rocha é presidente da junta de freguesia há três mandatos. Na hora da saída, assume, em entrevista ao Diário de Aveiro, que ao «orgulho» se junta a «frus­tração» pelos projetos não concretizados.

Diário de Aveiro: Que balan­ço faz dos seus mandatos à fren­te da junta de freguesia da Gafanha da Nazaré?
Carlos Rocha: Saio com a consciência tranquila e o sentimento de dever cumprido. Exis­te um sentimento misto de orgulho e frustração. Orgulho do trabalho realizado e frustração pelos objetivos e projetos que, não dependendo de nós, não foram concretizados. Ao longo destes 12 anos, orgulhamo-nos de termos concluído a totalidade das obras contratualizadas com a câmara, quer no âmbito da delegação de competências, quer no âmbito dos contratos interadministrativos. Obras con­cluídas dentro dos prazos acordados e com investimentos de capitais próprios da junta de freguesia muito acima daqueles que constavam dos acordos. Destacamos algumas delas: aquisição de um elevador para permitir acessibilidade ao piso superior a pessoas com mobilidade reduzida; aquisição de uma viatura mista para transporte de funcionários; reabilitação total da Capela das Almas, marca identitária do cemitério; substituição da cobertura em fibrocimento do edifício da junta; realização da rede de águas pluviais e residuais e a pavimentação do Beco Conde de Aveiras; construção de tramos de passeios em diversas ruas; requalificação da envolvente ao depó­sito da água; requalificação do muro do parque de campismo e dos balneários; e instalação da rede de águas residuais dos balneários do Complexo Desportivo do Gafanha e dos balneários do parque de campismo. Os acordos representam um investimento próximo de um milhão e de 800 mil euros, respetivamente, em contratos interadministrativos e delegação de competências. Frustração pelos diversos projetos a­presentados aos diferentes executivos camarários, quer liderados por Fernando Ca­çoi­lo quer por João Campolargo, e que não foram concretizados. Quando equacionados, assemelham-se a “me­ros projetos de ficção” que, a concretizarem-se, precisam de décadas para ver a luz do dia. São exemplo a requalificação dos centros urbanos da Gafanha da Nazaré; a ampliação do cemité­rio, que ao que parece será uma realidade ao fim de 12 anos; a execução da rede de águas pluviais na zona da Marinha Velha; requalificação do Jardim 31 de Agosto, que ao que parece será integrado num “masterplan” com prazo para daqui a 20 anos; iluminação da Rua da Seca; requalificação da envolvente da pisci­na municipal; um novo lar para a freguesia; prolongamento da Alameda D. Manuel II; conclusão da Rua Maria da Luz Facica; requalificação do Complexo Desportivo do Gafanha; entre muitas outras prioridades que foram e são do conhecimento dos executivos camarários e que, ano após ano, são ignorados. Sinceramente, comparan­do com outras zonas do muni­cí­pio, ficamos com a sensação de que somos alvo de esquecimento e da falta de atenção. A Gafanha da Nazaré, pela sua importância demográfica, pelo desenvolvimento económico e comercial que tem no mu­nicípio e região, merece e tem o direito de ser olhada de outra forma pelos executivos camarários. E essa atenção deve ser ao longo do mandato e não apenas nos últimos meses, ao abrigo e debaixo do fogo de artifício da campanha autárquica.

A junta reclama, há anos, uma intervenção de fundo no centro da freguesia. É uma mágoa que leva?
A vida de autarca não nos traz mágoas. O processo autárquico é e sempre será um processo inacabado. Está constan­temen­te a criar-nos desafios. Uns que dependem de nós, outros que dependem de terceiros. A conjugação das diversas vontades e prioridades são fundamentais para resultarem em melhorias e na prestação de melhores serviços para a população. Quan­do as visões são diferentes, resultam exclusivamente as decisões de quem detém o poder económico e quem dele dispõe. Quando cheguei à junta em 2005, na altura como tesoureiro, assisti ao lançamento de um projeto, promovido por Ribau Esteves, que seria executado por uma empresa municipal, no sentido de requalificar o espaço do edifício da junta e a sua envolvente. Não se concretizou. Depois discutiu-se e trabalhou-se um proje­to de requalificação para a mes­ma zona, que incluía também a Avenida José Estêvão, apresentado por Fer­nan­do Caçoilo, que igualmente não se concretizou. Durante este mandato, de João Campolargo, foi apresentado e levado a discussão um “masterplan” mais abrangente, que inclui esta zo­na, mas que, do meu ponto de vista, a concretizar-se, levará décadas. Nem há uma previsão de calendarização para se iniciar verdadeiramente. A Gafanha da Nazaré merece e preci­sa da requalificação deste centro, tal como do centro da Cale da Vila, na zona do Largo St. Jhon’s. E essa requalificação só pode ser realizada pela câmara. Vamos continuar a trabalhar e a lutar diariamente na esperança de que um dia a Gafanha da Nazaré deixe de ser olhada de forma míope pela câmara municipal.
Em concreto, que projeto deveria ser concretizado?
O projeto que verdadeiramente gostaríamos de ver concretiza­do era o do Planeamen­to Urba­no. Ou seja, ser fei­ta uma verdadeira análise à Gafanha da Na­zaré, ao nível do or­de­namento do território, da mobilidade e transportes, da sustentabilidade ambiental, da habitação, dos espaços verdes e públicos, dos equipamentos e serviços públicos, etc., e depois definir as diretrizes, políticas e estratégias de cres­cimento e gestão do território. O resul­tado seria, com certeza, o melhoramento da qualidade de vida das pessoas, encontrar soluções de habitação, a redução de trânsito e poluição, o de­senvolvi­mento eco­nó­mico e e­qu­ilibrado, a inclusão social, a prevenção e mitigação de riscos, a identidade e coesão urbana, entre outras coisas. Como terra tradicionalmente liga­da ao mar, permitam-me que faça uma peque­na analogia: infelizmente, parece-nos que o município, prin­cipalmente nos últimos anos e no atual mandato, tem navegado à vista.

A obra de requalificação e ampliação da extensão de saúde foi adjudicada no final de 2024 por 3,6 milhões de euros. Em que pé está o projeto e qual a sua importância?
Pelo que sabemos, esta o­bra deverá avançar para o terreno ain­da duran­te 2025. Com finan­cia­men­to integral do PRR, trata-se de um projeto com prazos definidos para a sua conclusão. A sua im­por­tância é absolutamente vi­tal para o funcionamento do centro de saúde, que alberga a USF Atlântico Norte e a USF Bei­ra Ria. Estas duas uni­dades prestam cuidados de saú­de a cerca de 20.000 u­tentes, a­tual­mente em condições muito a­quém do desejável, tanto para os profissionais co­mo pa­­ra os cidadãos. É graças à dedicação, à re­siliência e à criatividade dos profissionais de saúde e de todos os servi­ços complementares que o funcionamen­to des­­tas uni­dades ainda se mantém regular, ape­sar das limitações. Esta é, sem dúvida, uma obra pri­o­ritária. Ao lon­go des­tes 20 anos em que tenho exercido funções na junta, foi feito um esforço contínuo junto da câmara e dos sucessivos Governos para que este projeto se tornasse realidade. É verdade que não verei a obra concluí­da até ao final do meu mandato, mas saio de consciência tranquila e com alegria por saber que este objetivo será finalmente alcançado em breve. Des­ta vez, não será mais uma promessa adia­da, graças ao financiamento total assegurado pelo PRR.

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Abril 19, 2025 . 08:30

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