O tempo dos “zombies” pasmados
Há fases da história em que parece que estamos atentos, lúcidos. E depois há outras, como esta em que vivemos, em que andamos meio anestesiados, a ver tudo acontecer como se fosse um filme. É estranho: nunca soubemos tanto sobre o que corre mal quando as coisas desabam e, ainda assim, ficamos ali, quase imóveis. No fundo, acho que nos tornámos um bocado “zombies” pasmados. Não por falta de inteligência, mas porque estamos afogados em ruído.
Se olharmos para trás, a Primeira Guerra Mundial foi um choque brutal. A Europa, orgulhosa do seu progresso, percebeu que também sabia destruir como ninguém. Depois veio a Segunda Guerra Mundial e acabou de vez com qualquer ilusão: o horror, a escala, a capacidade de desumanização… tudo ali, à vista. Ficou claro que ser avançado tecnicamente não significa ser civilizado no sentido mais profundo.
Foi precisamente desse choque que nasceu uma tentativa séria de fazer melhor. A criação da UNESCO, em 1945, por exemplo, não foi só mais uma instituição. Foi quase um reconhecimento de que, se as guerras começam na cabeça das pessoas, então a paz também deve começar pela mesma origem. Educação, cultura, cooperação, conceitos norteadores -parecia fazer sentido. E deveria ser o sentido, ainda hoje. Ao mesmo tempo, a Europa tentou reinventar-se, construir uma forma de convivência onde adversários passavam a trabalhar juntos. Durante muito tempo, isso foi visto como um exemplo raro de evolução civilizacional.
E a verdade é que resultou. Durante décadas, a paz deixou de ser uma pausa entre guerras. Passou a ser o normal. Talvez até demasiado normal… ao ponto de nos esquecermos de que não é garantida.
Hoje, o cenário já não é bem o mesmo. A guerra voltou à Europa, as tensões aumentam, e a confiança nas instituições já não é o que era. Mas o que mais me inquieta nem é só isso. É a forma como assistimos a tudo isto: meio distantes, meio desligados, como se não fosse bem connosco.
A era digital tem muito a ver com isto. A desinformação anda por aí à solta, espalha-se depressa, mistura tudo, às tantas, já nem sabemos onde está a verdade. E quando isso acontece fica muito difícil pensar com clareza, quanto mais agir. Na ânsia de acumular informação, esquecemo-nos do essencial: o que fazer com ela, como a filtrar, como articular. E depois há os mais novos. Crescem neste ambiente, sempre ligados, sempre expostos, mas nem sempre com espaço para parar e pensar, até porque é esse o objetivo da manipulação de massas - não dar espaço para processar. A família, que antes tinha um papel forte no sentido de dar estrutura, valores, a ensinar limites, esforço, mérito… vai perdendo terreno. É bem verdade que não foi sempre assim, nem em todas, mas possivelmente com mais presença.
Não desaparece, claro, mas já não tem o mesmo peso. E isso sente-se. Não quer dizer que esta geração seja pior - acho que seria simplista e saudosista dizer isso - mas é uma geração que cresce num contexto mais difuso, mais instável, mais exigente em termos de orientação.
Contudo, também não vale a pena apontar o dedo só aos jovens que são, na realidade, o reflexo dos menos jovens. Isto é geral. Todos nós, de uma forma ou de outra, entrámos neste ritmo. Consumimos tudo muito depressa, reagimos mais do que refletimos, temos opinião sobre tudo, mas raramente aprofundamos. Andamos nisto, meio em piloto automático.
E é aqui que vejo o verdadeiro risco. Não é só político ou militar. É um risco mais fundo, quase civilizacional. Porque quando deixamos de prestar atenção, quando a memória se esbate e os valores ficam meio diluídos, abrimos espaço para repetir erros que já devíamos ter aprendido a evitar. A Europa ainda pode ser um exemplo, ainda pode mostrar que há outra forma de fazer as coisas - mais cooperativa, mais equilibrada, mas isso não vai acontecer sozinho.
Depende de nós, de sairmos da cápsula que é este estado de pasmo e voltarmos a estar mesmo presentes.
No fundo, acho que o grande desafio hoje nem é tecnológico nem económico. É mantermos a cabeça no sítio, o sentido crítico ativo, e a noção de responsabilidade coletiva. A paz nunca foi automática, não é um fim em si. É o caminho, dá trabalho, dores, frustração, limitação do ego. E talvez esteja na altura de deixarmos de ver tudo à distância - e começarmos outra vez a levar isto a sério. |
* Gestão de Património Cultural, pela Escola Superior de Educação do Instituto Politécnico do Porto; Especialista em Património, Artes e Turismo Cultural







