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Sara Barros Leitão põe em cena monólogo sobre "espetro que teima" em pairar sobre aborto

“Nós, sozinhas”, um monólogo com texto, encenação e criação de Sara Barros Leitão, estreia em setembro, sendo que a peça poderá ser vista em Ílhavo e Espinho

A atriz, autora e encenadora Sara Barros Leitão aborda o tema do aborto no monólogo “Nós, sozinhas”, que vai estrear em setembro, em Braga, porque "um espetro teima em pairar sobre esse direito”, 20 anos após a despenalização.

Segundo Sara Barros Leitão, em entrevista à agência Lusa, esse "espetro de ameaça" vem "sobretudo dos governos de direita, com mais pendor para a extrema-direita", pois sempre que tomam posse "uma das coisas em que querem sempre voltar atrás é nos direitos reprodutivos".

“Nós, sozinhas”, um monólogo com texto, encenação e criação de Sara Barros Leitão, que se estreia dia 18 de setembro no Theatro Circo, em Braga, resulta de uma vontade de trabalhar o tema, “que há muito” a autora tinha, e que decidiu fazer um ano antes de se assinalarem os 20 anos da Lei da Despenalização da Interrupção Voluntária da Gravidez (IVG).

Para o enquadramento da obra, a atriz e encenadora recorda o ano de 2002, quando tinha 11 anos e residia na Maia, cidade que acolheu um 'mega julgamento', com 43 arguidos, entre profissionais de saúde, ajudantes de farmácia, um assistente social e 17 mulheres acusadas da prática de aborto. A principal arguida, uma enfermeira-parteira, seria condenada a oito anos de prisão.

Aliada a esta memória, Sara Barros Leitão foi “tendo pistas” de que tinha de abordar a questão, porque ao longo das várias peças que tem concebido e interpretado sobre mulheres, incluindo ““Monólogo de uma Mulher Chamada Maria com a Sua Patroa”, sobre o trabalho das empregadas domésticas, se apercebeu de que a IVG “é uma questão central e uma questão de classes”.

“Seja qual for a história da mulher, é uma história central em todas nós. Seja porque já fizemos, seja porque já pensámos fazer, seja porque conhecemos alguém que fez, porque ajudámos alguém a encontrar alguém que fazia” ou pelo "medo de engravidar", outra questão "transversal" às mulheres - o receio que é “o maior medo das adolescentes” e que constitui “um fantasma” que paira sobre as mulheres “desde o momento em que iniciam a vida sexual ou mesmo desde que têm a primeira menstruação”, acabando por impedi-las “de viver a sexualidade de forma plena”.

“Mesmo hoje em dia com a pílula e com contracetivos é um medo que paira sobre a cabeça das raparigas e das meninas”, frisou.

No espetáculo que criou a partir dos diários da Assembleia da República, "Guião para um país possível", voltou a confrontar-se com “todas as discussões que levaram à Lei da Despenalização da IVG” e, no último, “Suplicantes”, sobre migrações, voltou a encontrar "ligações importantes”.

As questões que dominam “Suplicantes” e “Nós, Sozinhas” - migrações e aborto - sustentam tentativas de controlo social “macro e micro”, "nos discursos da direita, nomeadamente da extrema-direita em Portugal”.

“O macro, na perspetiva global dos migrantes, do medo do outro, do que nos vai roubar o trabalho; e, no micro, naquilo que tem sido a cartilha da extrema-direita, que é o corpo das mulheres e sua posse", ou seja "o controlo do corpo das mulheres e, portanto, do seu sistema reprodutor e da gravidez”, sublinhou.

E isso “tem-se verificado nos governos de direita, a pender um bocadinho mais para a extrema-direita, pois sempre que tomam posse, os direitos reprodutivos são logo das primeiras coisas em que querem voltar atrás”, sublinhou Sara Barros Leitão.

Como exemplos citou "o absurdo" da aplicação de taxas moderadoras pelo governo do primeiro-ministro Pedro Passos Coelho a mulheres que fizessem IVG, pois "não podia voltar atrás naquilo que foi uma vontade expressa por referendo", em 2007, e "a posição do candidato da Iniciativa Liberal nas últimas eleições presidenciais, que é muito questionável".

“Então, percebe-se que há esta vontade a pairar e a existir nestes discursos que vamos agora ouvindo", argumentou a criadora, que defende continuar "a haver qualquer coisa estranha", já que passados quase 20 anos da despenalização da lei da IVG, "parece «que há um espetro que teima em pairar e em ameaçar esse direito”.

Por isso, quis fazer uma peça “que pudesse ocupar esse lugar de discussão”, “problematizando o tema", sem "ter medo de o trazer para cima da mesa".

Ao contrário da estratégia das agendas políticas, em que "quando há algum tema difícil a ameaçar os nossos direitos fundamentais, mais vale não mexer, nem tocar”, por "medo de, ao abrir a caixa, perdermos ainda mais direitos”, o "lugar da arte é diferente", sustentou.

Daí que a criadora se 'atire' para "Nós, Sozinhas", "numa perspetiva de poder também problematizar este assunto”. “Não como resistência de que estamos prontas se alguém quiser voltar atrás, mas na perspetiva de que ainda falta muito a fazer”, realçou - até porque, realçou, continua a ser um direito “que não está acessível à grande maioria da população”.

“Há mais de 40% de hospitais que são objetores de consciência, há regiões inteiras que não conseguem médicos para garantir as IVG”, notou, frisando que, na Europa, “a rota de Portugal para Espanha é a segunda mais usada” para a prática de IVG.

As dez semanas que a lei portuguesa determina “não são suficientes”, afirmou, defendendo que “é preciso alargar o prazo e tirar a IVG do domínio hospitalar", entre outras coisas.

O lugar da arte, argumentou, significa "trazer os problemas para discussão e não apenas como reação".

Sara Barros Leitão espera, por isso, que a peça “Nós, Sozinhas” "se projete para o futuro e garanta melhores direitos reprodutivos para todos”, dando como exemplo da discriminação social, a “externalização da IVG nos privados", sem esquecer "quanto isso custa ao Estado”, nem a realidade de, em muitos casos, haver "quem vá a Espanha abortar porque o prazo é maior” do que dez semanas.

“E quando vai a Espanha paga e paga bem”, acrescentou. Porque o aborto continua a “ser uma questão de classe".

"Já com este Governo, esta teoria do 'turismo de saúde' e a agenda contra os imigrantes tem feito com que muitas mulheres migrantes não tenham acompanhamento nos seus direitos reprodutivos. E, portanto, não conseguem ter acesso a IVG em Portugal”, sublinhou, lembrando estarem em causa “questões de direitos fundamentais que não conseguem chegar a toda a gente por questões políticas e de classe”.

"Evidentemente, estamos a falar das migrantes pobres" e dos "entraves que têm sido colocados a estas mulheres para entrarem nos serviços de saúde”.

Além do mais, prossegue, "foi uma questão de classe que fez com que se levasse tanto tempo a discutir a IVG em Portugal”, porque "quem tinha dinheiro facilmente ia ao estrangeiro fazer uma IVG”.

A criadora lembrou ainda que no pós-25 de Abril houve “todas as possibilidades” para resolver a questão do aborto, aludindo, nomeadamente, a um projeto da UDP para que ficasse consignado na Constituição. “E poderia ter sido tão bom se tivesse passado”, sustentou.

Sara Barros Leitão recordou o ano de 1979, “com a democracia já consolidada e com o PREC [Processo Revolucionário em Curso] já resolvido”, quando a jornalista Maria Antónia Palla foi a tribunal acusada pelo Ministério Público de incitação ao crime e atentado ao pudor, por ter realizado uma reportagem intitulada “O aborto não é crime”.

Assim como o processo-crime que, no mesmo ano, sentou no banco dos réus, no Tribunal da Boa-Hora, em Lisboa, um jovem mulher de 22 anos, acusada da prática de aborto por denúncia anónima.

“É bizarro como é que isto acontece já em democracia. É a mesma coisa que hoje um jornalista ser processado por fazer uma peça sobre tráfico de droga”, defendeu, lembrando que tanto a jornalista como a jovem acabaram absolvidas.

Da história da luta para a despenalização da IVG, Sara Barros Leitão lembrou ainda o manifesto escrito pela jornalista e ativista pelos direitos das mulheres Maria Antónia Fiadeiro, lançado em Portugal, em 1979, pela Comissão Nacional para a Legalização do Aborto (CNLA), que reuniu perto de três mil assinaturas de mulheres que admitiam publicamente ter realizado um aborto.

“Estou convencida que demorou até 2007 [conseguir a Lei da despenalização da IVG] porque na classe política e na élite portuguesa esta realidade estava assegurada e resolvida através do dinheiro - ir a Londres ou Itália ou Espanha, ou mesmo cá, pagando a médicos anestesistas. [...] As mulheres burguesas sempre conseguiram ter acesso [ao aborto] se o pagassem”.

Como a “questão de classe estava assegurada, não era necessário trazer este assunto. São sempre as mulheres pobres que sofrem ainda mais com tudo, nomeadamente com os seus direitos reprodutivos”.

Depois da estreia no Theatro Circo, onde fica em cena nos dois dias seguintes, o monólogo “Nós, Sozinhas” segue em digressão, para Lamego (26 de setembro), Matosinhos (09 e 10 de outubro), Loulé (22 de outubro), Ílhavo (07 de novembro), Espinho (20 novembro) e Fafe (27 de novembro). Em 16 de outubro estará num local “que ainda é segredo”.

Em 2027, haverá terá récitas no Funchal (05 e 06 de fevereiro), Coimbra (02 de abril), Pombal (17 de abril) e Viseu (23 de abril).

Julho 19, 2026 . 11:37

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