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«Portugal perdeu demasiadas oportunidades ao longo da minha vida»

Aos 90 anos, Henrique Neto lamenta a falta de visão estratégica do país, critica o domínio dos partidos sobre a democracia portuguesa e defende que a verdadeira mudança começa na educação das crianças

Diário de Aveiro: Fazer 90 anos muda a forma como olha para o país e para a vida pública?
Henrique Neto: Muita coisa mudou e tive de me adaptar a novas condições pessoais, profissionais, políticas e, porventura mais difícil, tecnológicas. Todavia, olho o país com as mesmas convicções da juventude, quando, aos 14 anos, iniciei no MUD Juvenil uma lon­ga caminhada contra o regime de Salazar, na defesa de um modelo de vida democrático e por uma nova cultura de progresso económico e social que nos aproximasse dos países mais desenvolvidos.

Sente que chegou a esta ida­de mais desiludido ou mais esperançado com Portugal?
É evidente que sofro com o facto de Portugal ter evoluído tão pouco ao longo da minha vida e perdido tantas oportunidades, nomeadamente a partir do 25 de Abril de 1974. Além de que me tendo dedicado a escrever sobre ideias e feito propostas ao longo dos últimos 50 anos, verifico com tristeza que poucos compreenderam a sua utilidade e a grande maioria passa ao lado na voragem do curto prazo.

Em que momento percebeu que não lhe bastava ser apenas empresário e que queria intervir civicamente?
Politicamente desde cedo na juventude e tendo beneficiado do clima social e político vivido então na Marinha Grande com a família, com mestres e amigos que me inspiraram e tendo começado a trabalhar aos 14 anos, o objetivo principal era ter uma profissão e deixar de ser pobre. Não pensava ser empresário e recusei várias oportunidades, até que as circunstâncias do 25 de Abril me forçaram a isso. Todavia mais importante, tive na minha vida um momento de sorte, que foi também de alguma inspiração para uma concepção de vida que me guiou até hoje e que passou a orientar-me como político das horas vagas, como dirigente de empresas e como empresário. Teria uns 30 anos, quando li os livros de um francês, Alain Toffler, o primeiro deles o “Choque do Futuro”, que me chamou a atenção para a aceleração da mudança nas sociedades modernas e sobre a necessidade de aprender a prever o futuro. Por esse tempo, o meu saudoso amigo e mestre José Vareada convidou-me pa­ra escrever no jornal “O Correio” da Marinha Grande e durante cerca de dois anos escrevi o que então titulei de “Crónicas do Futuro”, um exercício de escrita que continuei até hoje e que muito me ajudou como profissional e para aquilo que ainda hoje escrevo: não olhar demasiado para os problemas da conjuntura para me educar a prever as transformações sociais, tecnológicas, políticas e empresariais. A generalidade das pessoas não sabe, mas tenho no meu currículo uma boa dezena de previsões sobre coisas que escrevi e que o tempo confirmou, quer no plano político quer empresarial, aliás cau­sa de algum sucesso que pos­sa ter tido como gestor e empresário.

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Junho 17, 2026 . 09:15

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