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Opinião

Inovação, Indústria, Logística e Território: Aveiro e a transição para a Sociedade 5.0

Junho 11, 2026 . 10:15
Resumo da palestra “Inovação, Indústria, Logística e Território: O Sistema Regional de Inovação de Aveiro na transição para a Sociedade 5.0”, realizada no âmbito da iniciativa “2.º Encontro de Saberes e Sabores”, promovida pelos Clubes Rotários de Oliveira do Bairro, Albergaria-a-Velha, Ílhavo, Aveiro e Águeda, no dia 9 de maio de 2026, no Cais Criativo da Costa Nova.

Parte I - Aveiro, século XIX, Estado e afirmação territorial

A discussão sobre inovação territorial tornou-se demasiado importante para continuar limitada ao debate sobre a tecnologia e restrita a um conjunto de técnicos e especialista setoriais. Os territórios mais competitivos do século XXI não serão necessariamente os mais digitalizados, nem os que possuírem mais sensores, plataformas ou inteligência artificial.

Serão aqueles que conseguirem integrar tecnologia, conhecimento, logística, sustentabilidade e qualidade de vida numa visão coerente de desenvolvimento do seu território.

Aveiro tornou-se um caso particularmente relevante nesse contexto. A região consolidou, ao longo de várias décadas, um conjunto de ativos territoriais: base industrial diversificada, forte capacidade exportadora, uma universidade tecnológica e ligada à economia real, um porto marítimo competitivo, um conjunto de infraestruras rodoviárias e ferroviárias, um ecossistema de telecomunicações e uma crescente capacida­de de experimentação em ambiente real. Acres­ce que estes fatores têm sido progressivamente articulados entre si.

Esta realidade atual resultou de um longo processo de configuração territorial, institucional e económica, marcado por sucessivas adaptações às mudanças tecnológicas e aos novos contextos internacionais.

Em Aveiro, a inovação nunca dependeu exclusivamente da tecnologia. Dependeu sobretu­do da capacidade de mobilizar atores sociais e institucionais e de reorganizar continuamente o território perante novos desafios.

A abertura definitiva da barra de Aveiro, em 1808, constitui talvez um dos primeiros grandes exemplos deste processo.

A obra permitiu estabilizar a ligação ao mar e alterar profundamente as condições económicas da região. Mais do que uma intervenção de engenharia, tratou-se de uma decisão política que suportou uma estratégica de garantia de conectividade, de aposta na manutenção do comércio internacional e no reforço posicionamento territorial da região de Aveiro, à data, no contexto nacional.

Ao longo do século XIX, Aveiro começou gradualmente a assumir maior centralidade regional. A criação dos distritos, em 1835, por força da reforma de Mouzinho da Silveira, e a correspondente elevação de Aveiro a capital de distrito reforçou a sua capacidade de afirmação administrativa e institucional.

A relação entre administração pública, organização territorial e desenvolvimento económico tornou-se particularmente evidente nesse período de modernização liberal do Estado português, e um conjun­to de investimentos posteriores durante o “Fontismo” permitiram e consolidando o papel do distrito de Aveiro no desenvolvimento nacional.

Durante a segunda metade do século XIX, o chamado “Fontismo” teve um impacto particu­larmente relevante na transformação territorial do distrito de Aveiro.

A política desenvolvida por Fontes Pereira de Melo, sobretudo entre as décadas de 1850 e 1880, assentava numa ideia cen­tral: modernizar o país através do investimento público em infraestruturas, transportes, comunicações e industrialização.

Portugal procurava aproximar-se dos modelos europeus de desenvolvimento e Aveiro beneficiou diretamente desse ciclo de investimentos.

Foi neste contexto que se consolidaram algu­mas das principais infraestruturas estruturantes da região. A chegada da ferrovia a Aveiro, integrada na Linha do Norte, em 1864, alterou profundamente as relações económicas e territoriais do distrito.

A ligação ferroviária aproximou Aveiro do Porto e de Lisboa, reduziu tempos de circulação, reforçou o comércio e criou condições para a industrialização regional.

A própria decisão de fazer passar a Linha do Norte por Aveiro resultou da conjugação da posição política de José Estêvão, da pressão regional e da importância crescente da cidade enquanto plataforma económica e administrativa.

A ferrovia tornou-se rapidamente um dos principais instrumentos de integração territorial e de expansão industrial do distrito.

Paralelamente, o Fontismo reforçou a aposta em estradas, obras públicas, modernização portuária e melhoria das comunicações.

A região de Aveiro beneficiou dessa lógica de investimento estatal em infraestruturas e transportes, num período em que o desenvolvimento económico dependia cada vez mais da capacidade de integrar mercados e reduzir custos de transporte. A combinação entre barra marítima, ferrovia e progressiva industrialização começou então a desenhar aquilo que hoje poderia ser designado como um primeiro ecossistema logístico-industrial regional.

Mais do que um simples programa de obras públicas, o Fontismo representou uma mudança de paradigma na relação entre Estado, território e economia. Pela primeira vez, o desenvolvimento passou a ser entendido como dependente da criação de redes físicas de circulação, conhecimento e integração territorial. Em muitos aspetos, essa visão continua hoje extremamente atual.

Junho 11, 2026 . 10:15

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