
No Teatro Fantástico, o «bichinho» da arte fala mais alto do que as dificuldades
O relógio marca as 21.30 horas e as pessoas que se encontram no pequeno auditório do Centro de Educação e Recreio (CER) de Vagos sabem que a noite vai ser longa. Dentro de uma semana, quatro atores do grupo de Teatro Fantástico vão subir a este mesmo palco para apresentarem a nova produção deste ano, e a equipa está reunida para mais um ensaio.
Do palco ouvem-se os sons de uma aparafusadora que é usada para dar os toques finais no cenário e junto da primeira fila de cadeiras tiram-se medidas e experimentam-se peças de vestuário. Em cima do palco, os atores vão colocando os auscultadores que lhes permitem comunicar com a equipa técnica. «Sabes meter isto a funcionar?», atira um deles. «Não, não é para isso que me pagam», retorquiu outro.
É uma afirmação irónica, porque nenhuma das pessoas que assegura, todos os anos, a concretização de uma nova estreia é remunerada: o Teatro Fantástico é um grupo cem por cento amador, mordomia da Santa Casa da Misericórdia de Vagos.
O «bichinho» do teatro
Em novembro de 1996, um engenheiro de máquinas, um informático, um professor, um engenheiro eletrónico, um engenheiro cerâmico e um economista reuniram-se no escritório de um contabilista e criaram o Teatro Fantástico. «O grupo nasceu numa reunião realizada no meu escritório de contabilidade, que funcionava na minha garagem», conta-
-nos, entre risos, um dos sete fundadores, João Mário Fernandes.
«Todos tínhamos já muita sarna com que nos coçar, mas o bichinho do teatro era mais forte do que nós», confessa o encenador que, tal como os restantes jovens fundadores, contactava com o teatro de forma amadora, através do então movimento local juvenil da Igreja Católica. Hoje, a caminho dos trinta anos de atividade, as fileiras do grupo continuam a ser compostas por membros sem qualquer formação ou experiência profissional em teatro.
Susana Martinho é prova viva disso mesmo. Este ano, vai ser a única atriz a pisar o palco do auditório do CER, acompanhada por três colegas. Para esta mulher de 46 anos, natural de Vagos, o Teatro Fantástico é um «escape» que tem ocupado os seus tempos livres desde 1997. O cunhado foi um dos cofundadores e acabou por incutir nela o «bichinho» da representação.
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