Última Hora

No Dia do Trabalhador: debater políticas, não pessoas

Maio 1, 2026 . 11:00
Em Aveiro, vamos celebrar o Dia do Trabalhador - cujos direitos, como a greve, são uma conquista da Constituição de Abril.

A comemoração acontece na semana em que o PSD concretizou com o Chega um acordo para ficar com maioria absoluta na Câmara de Aveiro, fez um pacto com um Partido que recusa a nossa Constituição, saudosista dos tempos da ditadura.
Um vereador do Chega passa a regime de tempo inteiro e Luís Souto passa a governar com maioria absoluta. A decisão é tão difícil de justificar que o presidente da câmara voltou a não responder a nenhuma pergunta: Aveiro precisa de mais um vereador a tempo inteiro porquê? Que pelouros lhe serão atribuídos? Estando há semanas a ser anunciada a negociação conducente a este acordo, qual o seu conteúdo?
Confrontado com críticas ferozes, designadamente de quem apoiou a Aliança PSD/CDS, o vereador eleito pelo Chega reagiu no tom a que o presidente da câmara nos tem, infelizmente, habituado - pouca política e muitos ataques pessoais -, em vez de explicar que utilidade terá para os aveirenses a sua passagem a vereador a tempo inteiro e a que projetos futuros se entendeu com Luís Souto.
Isto suscita uma interrogação sobre a utilidade que Luís Souto pretende atribuir a este seu vereador a tempo inteiro. Estará a precisar de reforços para uma atuação mais musculada contra uma oposição que faz o que deve, por mais que isso o incomode? Será esse o pelouro, o de manusear o chicote? Nós preferíamos que dedicasse mais tempo a resolver os problemas de habitação, de trânsito, de aces­so a cuidados de saúde, de política cultural ou de equipamentos e infraestruturas - só para dar alguns exemplos, a lista é extensa porque isto não vai bem.
Estar na vida pública à custa de muitos ataques pessoais e pouca política tem contribuído seriamente para a crise da Democracia. É um tom que só interessa a um populismo pouco qualificado que quer distrair as atenções dos factos, dos problemas reais dos trabalhadores e da sua incompetência para os resolver.
A 13 de setembro de 2025, pouco an­tes das eleições, a comunicação social noticiava que «Diogo Machado, do Che­ga, respondeu claramente “não” a qualquer entendimento, seja com quem for, exibindo o seu próprio programa eleitoral».
Já depois das eleições, o Chega divergiu publicamente do PSD em dossiês qualificados e fundamentais para o executivo. Opôs-se ao Plano de Pormenor para o Cais do Paraíso e votou até a favor da sua revogação, na câmara e na assembleia municipal. O Plano de Pormenor foi ressuscitado porque Luís Souto quis, com os votos do PSD e do CDS. Diogo Machado também se opôs a Luís Souto sobre o financiamento pela autarquia ao livro da autoria de Ribau Esteves, criticou com veemência a ausência de explicações sobre as buscas realizadas pela PJ, acusou Luís Souto de «bloqueio político e desconsideração institucional». Diogo Machado divergiu de Luís Souto quanto às soluções para a Escola Homem Cristo, a Avenida Lourenço Peixinho, o Parque Desportivo, o Pavilhão-Oficina, o fraco investimento na habitação. E por aí adian­te. Em todos estes dossiês, com o que podem agora contar os aveirenses?
A 20 de janeiro de 2026, o vereador Diogo Machado assinou o documento público relativo às Grandes Opções para Aveiro propostas pelo executivo e justificou a abstenção, entre outros aspetos, considerando que «onde nunca falta dinheiro é na comunicação institucional. Há sempre verba e mais verba para imagem, marketing, redes sociais, propagan­da. Primeiro comunica-se o sucesso, difunde-se a propaganda, depois logo se vê se ele aparece». Ora, também pode haver verba para mais um vereador a tempo inteiro, mas é importante dizer aos aveirenses para quê.
É pouco esclarecido atacar os muitos críticos da coligação PSD/Chega dizendo que houve antes outras coligações. Pois houve. Ninguém pôs isso em causa. O problema desta em específico é trazer para o executivo aveirense, concelho-sede da oposição democrática à ditadura, um partido cujo líder defende uma mudança de regime (o atual é a democracia) e acha que Portugal precisa de três Salazares. O problema desta coligação é ser com o Chega e não se informarem os aveirenses sobre quais são as propostas do Chega que se tornam, agora e por decisão de Luís Souto, projeto político de Aveiro.
Homenagear os trabalhadores é garantir os direitos que Abril lhes trouxe. Esse Abril sem o qual não há maio.

Maio 1, 2026 . 11:00

Partilhe este artigo:

Junte-se à conversa
0

Espere! Antes de ir, junte-se à nossa newsletter.

Comentários

Fundador: Adriano Lucas (1883-1950)
Diretor "In Memoriam": Adriano Lucas (1925-2011)
Diretor: Adriano Callé Lucas
94 anos de história
bubblecrossmenuarrow-right