
«Não tenho complexos nenhuns em relação ao Chega»
Na primeira entrevista que concede ao Diário de Aveiro após a sua eleição, em outubro do ano passado, Luís Souto Miranda admite uma possível coligação com o Chega com o objetivo de desbloquear impasses políticos. «Não nos querem deixar trabalhar e isso é claríssimo. Em todos os grandes dossiês querem parar tudo», diz o edil aveirense, que se tem apropriado do “slogan” do primeiro-ministro, sobre o PS. O social-democrata adiantou ainda que o Pavilhão-Oficina, que deverá ficar concluído até ao final deste mandato, será o maior investimento dos próximos anos e que o concelho está em conversações com Amesterdão para estabelecer acordos de cooperação entre os dois territórios.
Diário de Aveiro: Sempre afirmou que os seus mandatos seriam de continuidade com o anterior executivo. Agora que tem alguma experiência no cargo, o que é que mais o distancia de Ribau Esteves?
Luís Souto Miranda: É uma pergunta difícil. Cada político e cada pessoa têm a sua maneira de estar e a sua personalidade. Obviamente que o engenheiro Ribau Esteves esteve muitos anos à frente da Câmara de Aveiro e já tinha estado muitos anos em Ílhavo. É um dos autarcas mais experientes no país e obviamente que nem há comparação a fazer. Temos trajetos diferentes: no caso do engenheiro Ribau Esteves é uma longuíssima carreira na atividade política; no meu caso é um trajeto feito na vida profissional, académica, e só muito recentemente na política. Naturalmente, esses diferentes trajetos têm consequências na maneira como se olham as questões e na forma como se vão gerindo os assuntos. De resto, estabelecemos que havia uma certa continuidade, mas também renovação.
“Inovação” é a palavra que tem usado. De que forma tenciona materializá-la?
Essa inovação é a diferentes níveis. Por um lado, nós reavaliamos os projetos que já estavam em curso e vamos analisando. Não havendo rupturas - sempre dissemos que não havia rupturas - há ajustamentos pontuais a fazer.
Pode dar exemplos?
Toda a questão que tem que ver com o futuro Parque das Marinhas, a antiga lota. Já houve um concurso de ideias, houve trabalho posterior sobre ele e nós próprios debruçámo-nos sobre o que está e introduzimos algumas alterações que têm que ver com a forma como olhamos para aquele espaço. É um bocadinho este exercício que vamos fazendo em determinados projetos. Fazemos sempre uma reavaliação conforme a nossa própria opinião.
Foi eleito com o mesmo número de vereadores que o PS. Encara uma possível coligação com o Chega como um desbloqueador de impasses políticos?
Em teoria, podemos trabalhar em minoria. No entanto, temos aqui grandes decisões para o município que deveriam exigir um quadro estável. Infelizmente, não tivemos maioria absoluta, vá-se lá saber porquê, temos de estudar e corrigir e na próxima vamos ter maioria absoluta, com toda a certeza. O que é que notamos por parte do PS? Uma atitude que comparo com o próprio PS, não preciso de comparar com mais nada. Comparo a atitude do atual PS com a atitude do PS em anos anteriores e é totalmente diferente: constantemente a inundarem-nos com requerimentos - dizem que são poucos, mas não são poucos, porque, às vezes, implica parar serviços que estão connosco, empenhados em concretizar todos os grandes objetivos do mandato. Além disso, a tomada de decisões em dossiês importantes não tem sido construtiva, por isso temos que encarar como vamos resolver isso e estamos a estudar.
Olha para a coligação como uma possibilidade?
Estamos abertos a quem se queira juntar em nome de dar dinâmica ao nosso município. Há claramente uma força política que está a apostar tudo em impedir que a gente consiga trabalhar. Não nos querem deixar trabalhar e isso é claríssimo. Em todos os grandes dossiês eles querem parar tudo, voltar a pensar tudo e colocam todas as questões e mais algumas só com um objetivo: pararem a máquina e chegarmos ao fim dos quatro anos e depois dizerem-nos que não fizemos nada. É verdade que mais de 90 por cento das propostas têm sido aprovadas - não temos tido grande dificuldade no funcionamento corrente -, a questão prende-se com as grandes questões e dossiês. Aí, vamos estar confrontados com uma decisão: se abrimos ou não. A minha posição é: quem estiver empenhado em dar andamento aos grandes projetos por Aveiro é bem-vindo, por isso estamos abertos a esse diálogo. Não tenho complexos nenhuns em relação ao Chega, porque as pessoas é que fazem as instituições e os partidos. Nunca vi ninguém, em Aveiro, ter posições xenófobas ou discriminatórias. Também é preciso que se perceba qual é o enquadramento que está em causa: os protagonistas que estão em Aveiro são aveirenses e não têm discursos com os quais nunca poderíamos [compactuar]. Há linhas vermelhas que nunca iriamos deixar passar.
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