Hospital de Aveiro: a coragem para decidir
Aveiro está farta de promessas sobre a requalificação e ampliação do Hospital Infante Dom Pedro.
Farta de anúncios solenes, de conferências de imprensa bem coreografadas e de prazos que evaporam mal se apagam as luzes. O discurso repetiu-se durante anos; a obra, essa, continua por fazer.
O anterior presidente da câmara garantiu que a modernização era prioritária.
Prometeu ampliação, requalificação, reforço de valências, investimento estruturante.
O resultado é visível a olho nu: um hospital anacrónico, remendado, a funcionar permanentemente muito acima da sua capacidade instalada.
A promessa transformou-se num exercício de retórica. A execução ficou pelo caminho.
Mas seria ingénuo fingir que o problema começa e acaba em Aveiro.
O que aconteceu ao Hospital de Aveiro é consequência direta de uma estratégia política reiterada por sucessivos governos do PS e do PSD: concentração de recursos, centralização de investimento e reforço sistemático do Centro Hospitalar e Universitário de Coimbra.
Enquanto Aveiro aguardava estudos e relatórios, Coimbra recebia investimento, especialidades diferenciadas e reforço de meios. Não se trata de contestar a importância daquela estrutura.
Trata-se de denunciar o desequilíbrio crónico. Uma região que lidera exportações, que tem uma Universidade de referência e um tecido industrial robusto não pode continuar a ser tratada como periferia sanitária.
O resultado dessa opção política está estampado na realidade diária: urgências sob pressão constante, serviços a funcionar no limite, profissionais exaustos a compensar com dedicação aquilo que falta em espaço e equipamentos. E, no fim da linha, utentes obrigados a sair do distrito para aceder a cuidados que deveriam encontrar na sua própria terra.
A narrativa da “coesão territorial” tornou-se uma ficção conveniente. Na prática, houve drenagem de recursos para um único polo e adiamento sucessivo de decisões estruturais para Aveiro.
O hospital foi sendo mantido em modo de sobrevivência - sempre com a promessa de que a solução definitiva estaria “em preparação”.
Chegámos ao ponto em que já não há margem para discursos vagos. Ou se assume, com coragem, a construção de um novo Hospital Central e Universitário em Aveiro - com capacidade para integrar ensino, investigação e prática clínica, fixar médicos e criar verdadeira massa crítica regional, como propõe o CHEGA e eu mesmo - ou se avança imediatamente para uma requalificação total, profunda e calendarizada do atual Hospital Infante Dom Pedro, com financiamento assegurado e metas verificáveis.
O que não pode continuar é o ciclo do anúncio, do concurso, da anulação, do relançamento e da amnésia coletiva. Essa política de adiamento não é prudência financeira - é falta de prioridade!
E quando a saúde não é prioridade, algo está profundamente errado na hierarquia de decisões.
Aveiro não pode continuar a aceitar o estatuto de território secundário nas decisões nacionais de investimento na Saúde.
Não pode continuar dependente da “boa vontade” de Coimbra para garantir cuidados de saúde diferenciados à sua população. Isso não é solidariedade inter-regional, é resignação institucionalizada.
A saúde é o teste mais exigente à seriedade de quem governa.
É aqui que se mede a diferença entre liderança e gestão acomodada.
É aqui que se expõe quem tem coragem de decidir e quem prefere empurrar o problema para a legislatura seguinte.
A região já esperou tempo demais. Agora a escolha é clara: visão estratégica e investimento estrutural, ou manutenção de um hospital exausto à força de remendos. A indecisão não é neutralidade - é cumplicidade com o declínio.
Na saúde, adiar não é apenas falhar. É condenar uma região inteira a continuar em segundo plano. E isso, para Aveiro, não é aceitável. Nem tolerável.







