
Um palco onde a dança se encontra com a literatura
O Teatro Aveirense transforma-se, amanhã, num espaço de arqueologia emocional. Pelas 21.30 horas, a “caixa de palco” da Sala Principal acolhe o espetáculo “Quando vem a taciturna de limiar em limiar o presente frágil”, a mais recente obra de Hugo Calhim Cristóvão e Joana Von Mayer Trindade, nomes que se têm afirmado como figuras de proa na dança contemporânea nacional.
A peça propõe uma reflexão densa sobre a ideia de ruína, melancolia e nostalgia. Movendo-se entre limiares: o desejo e o vazio, a vida e a morte, a coreografia invoca um universo eclético de referências. Das Mahavydias (deusas da sabedoria hindu) à poesia de Fernando Pessoa, Camilo Pessanha, Al Berto e Paul Celan, o espetáculo constrói uma ponte entre o misticismo oriental e a angústia existencial ocidental, sendo que a peça encontra o seu fôlego nas Mahavidyas, as dez deusas tântricas do hinduísmo. O foco recai sobre Dhumavati, a deusa viúva e envelhecida, que simboliza a dignidade de um corpo sem utopias ou ideologias, reagindo ao medo do que virá através do movimento puro.
O que resta ao corpo quando a esperança se esgota e o futuro deixa de ser uma projeção? É sobre este abismo que se debruça esta nova criação dos coreógrafos Joana e Hugo. Ao contrário da visão ocidental que idealiza o corpo jovem e eterno, a dupla de criadores propõe uma aceitação do declínio. «Projetamos um futuro quando indiscutivelmente o corpo irá soçobrar. Mas este envelhecer, este maturar, esta “taciturna” não é algo de negativo, é algo de positivo», explica o coreógrafo Hugo Calhim Cristóvão.
Em cena, quatro bailarinas, Sara Miguelote, Lucia Marrodan, Ethel Desdames e Marta Pieczul, que enfrentam um desafio de elevada exigência técnica. O registo é de fusão: onde termina a dança, começa a expressão dramática, num corpo a corpo com a fragilidade do presente.
Refira-se que este espetáculo não é um “estranho” à cidade. A sua criação resultou de um longo processo de desenvolvimento que incluiu sete residências artísticas por todo o país. Uma delas teve lugar, precisamente, no Teatro Aveirense, em novembro do ano passado, tornando esta apresentação um regresso ao lugar onde uma parte do movimento ganhou forma.
“Masterclass”: a dança
como reinvenção
Antecedendo a subida ao palco, o TA promoveu ontem, ao fim da tarde, uma “masterclass” intensiva dirigida a profissionais e alunos de artes performativas (maiores de 16 anos). A sessão foi orientada pelos dois coreógrafos e focou-se na ideia da dança como «via de resistência e de reinvenção da própria existência». Uma oportunidade rara para os artistas locais contactarem com a linguagem autoral da dupla, marcada por uma fisicalidade intensa e profundas interseções com a filosofia.










