
Valongo do Vouga afirma identidade marcada pela ação comunitária
Diário de Aveiro: Tendo em conta que Valongo do Vouga se destaca pelo seu património ambiental e ferroviário, que apoios concretos estão previstos para a junta de freguesia no âmbito do orçamento municipal de 108,4 milhões de euros para este ano?
Filipe Falcão: A freguesia de Valongo do Vouga é uma das maiores do concelho de Águeda, o que se reflete no elevado número de protocolos de delegação de competências que assume. No âmbito da educação, que constitui uma das suas áreas de maior intervenção, a freguesia assegura a Receção e Prolongamento de crianças do pré-escolar (AF) e a Receção e Prolongamento de crianças do 1.º Ciclo (CAF). Para além disso, garante o transporte escolar a toda a rede do agrupamento de escolas, incluindo o pré-escolar, o 1.º ciclo e o ensino básico do 2.º e 3.º ciclos (EB 2,3). Diariamente, são ainda servidas cerca de 400 refeições aos alunos do pré-escolar e do 1.º ciclo.
Complementarmente, a freguesia disponibiliza um serviço de apoio psicológico, com acompanhamento regular aos alunos do 1.º ciclo. No que respeita à população sénior, a freguesia de Valongo do Vouga irá iniciar, ainda este ano, o projeto Transporte Solidário, uma resposta social destinada a assegurar o acesso da população mais vulnerável a serviços essenciais, combatendo o isolamento e promovendo a inclusão social. Paralelamente, a junta de freguesia dispõe de uma psicóloga em regime de tempo inteiro, serviço que é parcialmente financiado através de um protocolo com o município, garantindo apoio especializado, nomeadamente em contexto de 1.º ciclo do ensino básico.
Este recurso técnico permite não só dar resposta às necessidades identificadas, como também justificar e potenciar o trabalho desenvolvido pela técnica ao serviço da comunidade. Acresce ainda o facto de a junta de freguesia integrar o Conselho de Administração da Fundação Nossa Senhora da Conceição, o que possibilita uma colaboração direta e contínua no âmbito da terceira idade. Esta Fundação, enquanto Instituição Particular de Solidariedade Social (IPSS), desenvolve a sua atividade através de respostas sociais, como centro de dia, apoio domiciliário e estrutura residencial para seniores, reforçando a articulação entre a freguesia e as respostas sociais existentes no território.
Com os protocolos das competências delegadas na área da educação, nomeadamente com o agrupamento de escolas, a freguesia acompanha a comunidade desde a infância, permitindo um contacto precoce e contínuo com as crianças e respetivas famílias. O facto de a psicóloga da freguesia prestar apoio tanto em contexto de 1.º ciclo, como junto da população sénior, reforça esta visão integrada, permitindo uma leitura global das necessidades sociais, educativas e emocionais da comunidade. No domínio da saúde, a junta de freguesia detém competências enquadradas na Lei n.º 75/2013, nomeadamente no que respeita à defesa e à promoção do acesso da população aos recursos e serviços de saúde existentes no território.
Esta atuação articula-se de forma natural com a área do ambiente, através da promoção e disseminação de boas práticas junto da população. A promoção da saúde pública e a proteção do meio ambiente surgem interligadas, assentes numa lógica preventiva e educativa, onde a informação, a proximidade à comunidade e a recomendação de boas práticas assumem um papel central na melhoria da qualidade de vida da população.
Quais são as prioridades para a freguesia neste seu terceiro e último mandato e que projetos pretende concretizar até ao final do mesmo?
No meu primeiro mandato, as prioridades da freguesia passaram por uma abertura ao exterior e por uma redefinição estratégica da sua atuação, sendo necessário recuperar a credibilidade da junta de freguesia, profundamente afetada por práticas e procedimentos incorretos do passado, que resultaram num saldo financeiro negativo. Ultrapassada essa fase, foram implementadas novas dinâmicas de gestão, assentes na transparência, no rigor e na recuperação de áreas consideradas estratégicas para o desenvolvimento da freguesia.
No segundo mandato, assistiu-se a uma mudança clara de foco, consolidando-se uma visão orientada para a capacitação da comunidade, através de ferramentas de instrução, sensibilização e promoção de boas práticas de conduta cívica e ambiental. Esta viragem estratégica surgiu na sequência de um episódio marcante para a freguesia, que, apesar de inicialmente adverso, se revelou um verdadeiro ponto de inflexão. O colapso de estruturas em betão e cimento nas margens de um rio obrigou a repensar profundamente a relação da freguesia com o território e com o meio ambiente.
Deste processo resultou a criação de uma zona verde e de um parque ambiental, a recuperação das margens ribeirinhas e o desenvolvimento de projetos inovadores, como o Laboratório dos Rios e a Casa dos Rios, que hoje se afirmam como uma das principais bandeiras e marcas identitárias da freguesia de Valongo do Vouga. A qualidade do espaço público, a relação com o meio ambiente e os comportamentos individuais surgem aqui como dimensões interligadas e complementares. Um exemplo concreto desta abordagem foi o desafio lançado ao agrupamento de escolas, incentivando os alunos a criarem mensagens de sensibilização relacionadas com a separação de resíduos e a poupança de água. Os trabalhos desenvolvidos pelas crianças foram posteriormente transformados em suportes de comunicação visual e colocados em locais estratégicos da freguesia, como pontos de recolha de resíduos e o cemitério, um espaço onde os consumos de água são tradicionalmente elevados.
Esta iniciativa permitiu envolver ativamente a comunidade escolar, promover políticas de boas condutas e incentivar a adoção de práticas ambientalmente responsáveis por parte da população. Neste último mandato, a freguesia pretende dar continuidade a esta linha de atuação, aprofundando e diversificando práticas que promovam a responsabilidade social e ambiental. Entre essas iniciativas destacam-se a implementação do projeto Transporte Solidário, a continuidade da ação desenvolvida em articulação com a Fundação Nossa Senhora da Conceição e o reforço do envolvimento da população sénior em atividades e projetos de cariz ambiental, consolidando uma intervenção integrada, intergeracional e orientada para o futuro.
A envolvência da comunidade estende-se igualmente ao contexto educativo, através de ações de formação desenvolvidas no âmbito do Laboratório dos Rios, como aconteceu no início do presente ano letivo. O objetivo passa por capacitar os professores a integrarem conteúdos no currículo letivo, assumindo um papel ativo enquanto intérpretes e multiplicadores das boas práticas ambientais junto dos alunos. Para além do impacto local, estas iniciativas contribuem também para a definição de políticas e para o fortalecimento da rede concelhia, reforçando a posição da freguesia enquanto agente ativo no território. Este trabalho ganha particular relevância no atual contexto do projeto GreenLeaf, no qual Águeda foi distinguida pela União Europeia como uma das cidades até 100 mil habitantes de referência na adoção de boas práticas ambientais.
Neste enquadramento, as iniciativas desenvolvidas na freguesia afirmam-se como exemplos concretos de aproximação à população, promovendo a participação coletiva e criando pontos de convergência em torno de objetivos comuns. Paralelamente, a freguesia reconhece a importância de um associativismo forte e dinâmico, que tem assumido um papel central na coesão social e económica do território, sendo atualmente um dos principais motores de dinamização local e um dos maiores empregadores da freguesia.
Como está a ser feita a manutenção do cemitério, estradas, passeios e iluminação pública?
A freguesia de Valongo do Vouga tem uma área superior a 43 quilómetros quadrados, o que coloca desafios acrescidos ao nível da manutenção e limpeza do espaço público, nomeadamente no que respeita a valetas, passeios e arruamentos. Nem sempre é possível responder com a rapidez ou a frequência que a população gostaria, sobretudo tendo em conta os recursos disponíveis. Importa ainda sublinhar que, desde 2018, a freguesia abandonou por completo a utilização de pesticidas e herbicidas, tornando-se a primeira eco-freguesia do concelho de Águeda. Durante os meses da primavera e do verão, períodos mais críticos em termos de crescimento de vegetação espontânea, podem surgir situações que, para alguns munícipes, são percecionadas como menos cuidadas do ponto de vista estético.
No entanto, estas ocorrências resultam de uma escolha consciente e responsável, que privilegia a sustentabilidade, a proteção dos solos, da água e da saúde das pessoas. Mais do que um sinal de abandono, a presença de vegetação espontânea reflete uma nova forma de gestão do território, que exige também uma adaptação de mentalidades. Apesar de, atualmente, existir maior capacidade financeira para reforçar equipas, a escassez de mão de obra disponível constitui um desafio real.
Mesmo os mecanismos de apoio habitualmente utilizados, como o recurso ao Centro de Emprego e Formação Profissional, nem sempre conseguem assegurar trabalhadores em número suficiente ou com o perfil adequado às necessidades da freguesia. A junta partilha da ambição de manter passeios limpos e espaços públicos cuidados. No entanto, importa reconhecer que a qualidade do espaço público depende de um esforço coletivo. Não é possível construir uma “terra ideal” sem o envolvimento ativo de todos, autarquia, instituições e população, num processo de corresponsabilização e cuidado contínuo do território.
Ainda assim, é importante sublinhar os avanços significativos alcançados nos últimos anos, nomeadamente ao nível da rede viária. A freguesia nunca teve uma cobertura tão abrangente de infraestruturas de pavimentação, resultado de um trabalho articulado e de proximidade com o município, cuja colaboração tem sido determinante e exemplar na melhoria das condições de mobilidade e qualidade de vida da população.
No que respeita ao cemitério, importa reconhecer que se trata de um espaço com uma carga emocional particularmente intensa, profundamente ligado à vivência e à memória coletiva da comunidade. Em Valongo do Vouga, estamos perante um cemitério de grande dimensão, que começa a colocar desafios relevantes em termos de capacidade e sustentabilidade futura. Para muitas pessoas, o cemitério é um local de recolhimento, cuidado e presença regular. Por essa razão, garantir um cemitério digno, cuidado e respeitador da memória dos que partiram é uma prioridade para a freguesia. É também neste contexto que se promove a adoção de boas práticas, nomeadamente ao nível da poupança de água e da correta separação de resíduos. Estas medidas não visam apenas uma gestão mais eficiente dos recursos, mas também a promoção de comportamentos conscientes e responsáveis, que ensinem as gerações futuras.
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