
Há um Museu Nacional na Mealhada que nunca deixou de ser uma arrecadação
Tudo começou em outubro de 1925, quando Mário Silva visitou o Conservatoire National des Arts et Métiers, em Paris. O físico e professor universitário, nascido em Coimbra, tinha então 25 anos. «Depois de visitar este conservatório, perguntei com grande surpresa: porque não haverá um conservatório das artes e ofícios em Portugal?», chegou a escrever o académico, discípulo de Madame Curie na capital francesa, nos anos 1920.
Mais de meio século depois, o «sonho de juventude» concretizou-se finalmente, com a inauguração do Museu Nacional da Ciência e da Técnica (MNCT), a 5 de junho de 1976. O objetivo com o projeto, dizia o físico, em declarações à RTP nesse ano, não era o de edificar um museu na «acepção antiga» da palavra. «O interesse é de haver um museu que seja único neste país, onde se concentrem todas as atividades relativas à história da ciência».
A sede em Coimbra não deveria limitar o âmbito nacional do projeto. Para o físico, o museu deveria «servir» todo o país, contando para esse fim com múltiplas «extensões» ou secções regionais. Em Avanca, o MNCT chegou a albergar a Casa-Museu Egas Moniz, então o único prémio Nobel português, hoje pertencente à Câmara Municipal de Estarreja. Já na Mealhada, na antiga estação da mala-posta do Carquejo, o fundador tencionava criar uma secção regional dedicada aos transportes terrestres.
O edifício, à margem da N1, na saída da Mealhada, em direção a Coimbra, tem a forma de “U”, à semelhança de estruturas construídas, há mais de 200 anos, para o mesmo fim. Trata-se de uma das múltiplas estações de muda, outrora pertencentes ao primeiro serviço postal nacional, nas quais repousavam cavaleiros e montadas e onde era articulado o transporte de mercadorias e passageiros. A do Carquejo era a primeira casa de muda a seguir a Coimbra, considerada por Mário Silva uma «casa histórica».
Quando o físico a visitou pela primeira vez, na década de 1970, as instalações pertenciam aos CTT. «Nessa altura apanhei um susto, pensei que tinham adquirido a casa para fazer o Museu da Mala-Posta. Fui a Lisboa falar com a administração e fiquei muito surpreendido quando o senhor administrador me disse que tinham comprado o edifício para fazer uma Casa de Chá». Entretanto esses planos já haviam sido abandonados e Mário Silva lá convenceu a administração, em 1974, a vender o edifício - por 265 contos -, ao MNCT, dando-se início, posteriormente, às respetivas obras de restauro. O objetivo do projeto seria implementar uma reconstituição histórica do primeiro serviço postal português, conhecido com o nome de “Mala-Posta”.
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