Última Hora
Pub

«É isso que eu quero, que não se esqueçam da gente»

Equipas de apoio psicossocial da Cruz Vermelha de Aveiro estão no terreno «desde o primeiro dia». «Perante a aflição e a desesperança das pessoas, nós procuramos dar algum conforto, dizer que estamos aqui»

Quando Maria, uma assistente social de 22 anos, abre a tampa da arca frigorífica, um cheiro nauseabundo escapa do seu interior e infiltra-se na casa e nas nossas narinas. A comida podre solta um odor pestilento ácido e azedo que nos atinge quase como se fosse uma substância sólida. É difícil conter o vómito.

Sem eletricidade, a arca não funciona. Nem o frigorífico, com manchas de ferrugem que lhe cobrem metade da superfície, nem a televisão, nem a máquina elétrica que ajuda a mulher a dormir. «Não temos luz desde o dia 28», diz António (nome fictício), e sem ela a vida como a conhecemos sofre uma grande transformação.

Este casal habita uma casa pequena e muito modesta em Vieira de Leiria, uma zona fortemente fustigada pela tempestade de 28 de janeiro. Os seus problemas já existiam antes daquele violento fenómeno meteorológico mas foram agravados por ele.

Ana, de 51 anos, Inês, de 38, e Maria, de 22, técnicas da delegação de Aveiro da Cruz Vermelha (CV), estão incumbidas de prestar apoio psicossocial a esta família. É um caso considerado prioritário. «Vamos verificar as condições em que vivem», explica Inês, psicóloga, «e perceber se precisam de ser realojados». Com as comunicações a funcionarem de forma intermitente, o GPS é uma ferramenta pouco eficaz. É preciso pedir indicações a outros moradores para encontrar o endereço. Um dos homens a quem são perguntadas indicações é um voluntário que veio ajudar a reparar telhados. «Estão na rua certa», diz.

As três mulheres batem ao portão metálico e chamam pelo homem: «sr. António, sr. António». Não há sinais de vida, pelo que tomam a iniciativa de entrar na propriedade, atravessando o quintal até chegarem à habitação. A mulher, de 67 anos, abre a porta. «Somos da Cruz Vermelha», explica Ana.

Lá dentro encontramos um cenário de Idade Média: um cheiro intenso a mofo, a casa na penumbra, o chão alagado. Não é possível dar um passo sem chapinhar na água. Vários baldes e alguidares recolhem os pingos que se soltam do tecto. Mas é como pôr um penso rápido numa vítima com fraturas múltiplas. «Estou farto de limpar o chão», conta o homem de 71 anos, «mas não serve de nada». A casa ficou destelhada com a tempestade e o telhado está agora revestido com lonas, mas isso pouco impede o tecto da casa de parecer um chuveiro.

Para continuar a ler este artigo

Se ainda não é
nosso assinante:
Assine agora
Se já é nosso
assinante:
Inicie sessão
Fevereiro 12, 2026 . 08:00

Partilhe este artigo:

Junte-se à conversa
0

Espere! Antes de ir, junte-se à nossa newsletter.

Comentários

Fundador: Adriano Lucas (1883-1950)
Diretor "In Memoriam": Adriano Lucas (1925-2011)
Diretor: Adriano Callé Lucas
94 anos de história
bubblecrossmenuarrow-right