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Falta mais capital de risco para passar o saber das universidades para as empresas

O Reitor da Universidade de Aveiro, Paulo Jorge Ferreira, fala das mudanças dos últimos anos no ensino superior público e de um futuro para o qual é preciso mais politicas de aproximação aos estudantes, formação e financiamento

O sucesso profissional dos alunos, a formação ao longo da vida, o financiamento da instituição, a sustentabilidade, a internacionalização, a ligação às empresas e a proximidade às pessoas, são temas da entrevista da revista “Linhas” ao reitor da Universidade de Aveiro (UA), Paulo Jorge Ferreira, a cerca de quatro meses de sair das funções. Sem resposta para todas as questões, aponta, pa­ra a maioria, caminhos possíveis, perante a informação de que dispõe atualmente, além de que desfaz um mito. Se este ano entraram menos alunos nas universidades, incluindo na UA, «a culpa não é da demografia».

Não nasceram menos, de repente
«Há 18 anos não nasceram subitamente menos portugueses», diz. Refere-se a estudantes «cuja preparação foi afetada pela pandemia (…) por isso o que aconteceu era de esperar. Tivemos uma redução muito grande do número de candidatos», além de que os cursos Técnico Superiores Profissionais, «hoje, são 12 por cento do ensino superior, o número de estudantes internacionais representa cerca de 5 por cento do total do ensino superior português e o de estudantes que entram por vias alternativas, como os maiores de 23 anos, também têm crescido». Quanto à redução da demografia, «tem sido gradual».
Neste domínio, o reitor diz que, «no futuro», a universidade terá estudantes «mais velhos, que procuram requalificação e soluções profissionais, e estudantes mais jovens, que entram via concurso nacional de acesso. É para esta realidade que será também cada vez mais profissional, que temos de nos preparar».

Como fazer?
Para o que não tem resposta é como «acelerar a passagem do saber das universidades para o dia a dia das empresas», como foi questionado na entrevista. «Quem souber exatamente o que falta (para acelerar essa passagem) resolve um problema que preocupa 27 economias, no mínimo», responde.
A disponibilização de capital de risco é fundamental para esta “passagem” e o reitor dá o exemplo dos Estados Unidos no apoio a «ideias verdadeiramente disruptivas» que resultam em «empresas gigantes». Por isso, diz: «Temos de apanhar esses comboios».
A atitude e a forma de agir pode mudar. «Devíamos, de alguma forma, incutir nos nossos estudantes, que serão os empreendedores do amanhã, a vontade de experimentar, sem medo de errar, para construir soluções novas. Nessa matéria ainda temos muito a aprender».
Mas, para já, «nem Portugal, nem a Europa têm capacidade de transformar os resultados de investigação em inovação, em economia, em valor acrescentado, como têm algumas economias da Ásia ou da América», referindo-se a «barreiras superiores à dessas economias», concretamente entre a investigação e a sua exploração do ponto de vista comercial, em empresas ou em “startups”.

Financiamento
Quanto ao financiamento da instituição, os desafios são «ver­dadeiramente descomunais», diz o reitor, que, perante a questão na entrevista, considerou uma pergunta de «extraordinária complexidade». Para Paulo Jorge Ferreira, é preciso «aperfeiçoar os incentivos e os mecanismos de financiamento e introduzir indicadores sensíveis à qualidade e ao desempenho.». Designadamente, «temos estudantes que entram, que permanecem, e diplomados que saem. Ser financiado por número de estudantes incentiva termos muitos estudantes, mas não muitos diplomados. Se diplomar menos até recebo mais, porque tenho mais cabeças a contar para o financiamento. Não convém ao país transformar as universidades em armazéns de talento. O país precisa de diplomados. É importante introduzir incentivos para estimular a capacidade formativa, sem prejuízo da qualidade». O reitor refere que esta questão «está a decorrer e está na mesa». Quanto aos indicadores, «são difíceis de desenhar, é muito mais fácil contar o número de estudantes, mas devemos enfrentar a dificuldade e melhorar o modelo de financiamento. Vamos ver o que o futuro nos vai trazer. Se for nesta direção, será compatível com o que fazemos na UA, porque sempre lutámos pela qualidade. Indicadores sensíveis à qualidade serão mais justos para uma instituição como a nossa».
A internacionalização também é valorizada na entrevista, assim como a sustentabilidade. «Temos uma calculadora da pegada da UA a funcionar, alimentada com dados em modo automático. A evolução mostra que estamos a conseguir ganhos e, em breve, teremos notícias muito positivas quanto a isso», diz.

Janeiro 6, 2026 . 08:30

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