
“Ver a vida com outros olhos” aos 68 anos
Recebeu-nos em sua casa, em São João da Madeira (SJM), na semana passada, poucos dias depois de ter ido para o ar o primeiro episódio da sexta temporada do "MasterChef Portugal” que a fez entrar na história como sendo a primeira concorrente cega a participar neste programa da RTP1.
Maria Manuela Silva, que sempre gostou de cozinhar, estava à espera da nossa reportagem com a doçura que tão bem a caracteriza e que tão cedo não esqueceremos. Juntamente com ela, estava António Silva, o marido, também uma pessoa inesquecível pela ternura, meiguice e gentileza. Ambos formam uma “bolha de amor” - da qual fazem parte os seus dois filhos, e respetivos companheiros de vida, e as quatro netas - que só mesmo visto. Naquele lar, doce lar, ouve-se o bater do coração. Ali, “serenidade” e “tranquilidade” são as palavras de ordem e isso sente-se, mal passamos a porta de entrada.
Foi na sala, decorada com motivos natalícios, que Maria Manuela, agora com 68 anos, “abriu o livro” da sua vida.
Nascida e criada em SJM, foi «em miudita», quando andava na escola primária, que «os professores se aperceberam que via mal». Até então ninguém tinha reparado nem nunca tinha usado óculos.
Os pais, como pais que se prezem, não tardaram em procurar ajuda. «Levaram-me a um oftalmologista, que detetou miopia», contou esta sanjoanense de gema, acrescentando: «Tentaram tudo que estava ao seu alcance». O pai, aliás, chegou a levá-la a «uma clínica muito famosa, em Barcelona [Espanha], para aí umas duas vezes». Maria Manuela - que começou por «usar óculos, bastante graduados» e que «aos 18 anos, já usava lentes de contacto», para além de ter feito várias cirurgias - garantiu que foi «sempre vendo». Não via bem, mas via o suficiente para ter «uma vida normal».
«Sempre pensei chegar ao fim da vida a ver»
«Estudei até ao 9.º ano: fui empregada de escritório (o que me obrigava a estar sempre a olhar para papéis e o computador); conduzia, indo para todo o lado (ia com dificuldade, mas ia)», partilhou com o Diário de Aveiro (DA), completando que só, «com 30 e tal anos», um outro médico oftalmologista, que não o seu, «de Coimbra», lhe disse que «tinha glaucoma» - doença ocular grave que pode levar à perda de visão e cegueira, mas que pode ser “travada” com um diagnóstico precoce, o que não foi o caso.
Os anos foram passando e Maria Manuela foi levando a vida da forma mais leve possível, tendo na família o maior “esteio”, até que, «há cerca de um ano e pouco», quando já estava reformada, cegou «completamente». «Foi uma surpresa. Não estava a contar, porque sempre procurei ajuda junto dos melhores médicos», confidenciou ao DA, prosseguindo: «Sempre pensei chegar ao fim da vida a ver, a ver mal, mas a ver. Sinceramente, não pensei que isto estivesse reservado para mim. Foi muito complicado».
Tão «complicado» que «estava a entrar já em depressão»: «Os amigos convidavam-me para sair e eu arranjava sempre uma desculpa para não ir», lembrou.
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